MEMÓRIAS

Através do projeto Memórias, buscamos resgatar a história da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.
Este é um espaço de preservação da memória da Associação, bem como de valorização dos pesquisadores que tiveram a coragem de encarar os desafios e edificarem de maneira sólida os pilares da pesquisa em jornalismo no Brasil.

 

Resgatar nosso passado para que não esqueçamos o que queremos para o futuro!

 

Elias Machado

Trajetória:

Minha vida sempre se confundiu entre a prática e a teoria. Desde os 14 anos, em 1981, quando comecei a trabalhar como radialista sempre me dediquei a pensar sobre as particularidades da prática profissional. Durante a graduação (1986-1989 – UFSM), como bolsista PIBIC-CNPq, orientado pelo professor Gustavo Quesada, me interessei por tentar compreender as motivações por detrás da crise de representação decorrente das contradições existentes entre as demandas sociais e as funções cumpridas pelas práticas jornalísticas em termos institucionais.  No Mestrado – A dialética do discurso jornalístico, (1990-1992), ECO-UFRJ, orientado pelo professor Nilson Lage, a minha contribuição se dá na definição do jornalismo como prática discursiva das singularidades da vida cotidiana, na compreensão da objetividade como parâmetro metodológico que orienta as interpretações nas práticas jornalísticas e na aplicação destas premissas para caracterizar as particularidades dos diferentes gêneros jornalísticos. 

No doutorado (1996-2000- UAB, Espanha) La estructura de la noticia en las redes digitales-un estudio de las consecuencias de las metamorfosis tecnológicas en el periodismo, orientado pelo professor Miquel Rodrigo, ao mesmo tempo em que sustentava a continuidade do jornalismo enquanto instituição destinada a estruturar o mundo-realidade pelo viés da singularidade dos fatos, definir o jornalismo no ciberespaço como uma nova forma de prática jornalística, que rompia com os parâmetros existentes e  identificar suas particularidades. Nos países de língua inglesa, a articulação entre jornalismo como forma de conhecimento, resgatando Robert Park e Adelmo Genro Filho, que fiz nesta tese com as práticas jornalísticas no ciberespaço, por exemplo, é algo, que sem a incorporação das contribuições inovadoras de Genro Filho, aconteceu apenas, em 2017, nos trabalhos de Rasmus Nielsen no Reino Unido. Estive entre os pioneiros nas pesquisas aplicadas em jornalismo, com iniciativas de pesquisa, publicação de artigos e desenvolvimento de projetos de plataformas de produção de conteúdos jornalísticos e de ensino e de metodologias de pesquisa, nos anos 90.

Nos últimos 20 anos, minhas principais contribuições são a definição do conceito de jornalismo digital em base de dados, que não deve se confundir com o conceito de jornalismo em base de dados. O que sustento é que, nas sociedades contemporâneas, as práticas jornalísticas em todas as suas etapas produtivas (apuração, produção, circulação e consumo) são estruturadas e mediadas pelas formas culturais das bases de dados. Isto é, as práticas jornalísticas são mediadas pelas tecnologias digitais e o jornalismo de algoritmos é uma realidade, comprovando teses defendidas no meu doutorado e as hipóteses dos meus livros O ciberespaço como fonte para os jornalistas, (2003) e Jornalismo Digital em Base de Dados (2006). Desde 2010 e a partir do meu pós-doutorado (2017-2018) – UCM, Espanha, tenho sistematizado o estudo das inovações no jornalismo, o que me permitiu a compreensão do ciclo completo de estudo que desenvolvi ao longo dos últimos 30 anos.  E minha contribuição, que pretendo apresentar como tese de Professor Titular, vai ser de definir o jornalismo como uma prática social institucionalizada que se estrutura a partir de uma pluralidade de formas organizacionais e narrativas antinômicas, orientadas por ideologias e moralidades práticas distintas e contraditórias.  

 

 

ENTREVISTA:

1)    Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

A construção de uma entidade como a SBPJor é o resultado de um trabalho coletivo de gerações sucessivas de jornalistas, professores e pesquisadores. Sem a profissionalização dos jornalistas, que data do começo do século passado,  a legitimação da prática profissional através dos cursos universitários, que remonta aos anos 1930 e aos cursos de pós-graduação em Comunicação, que são do começo dos anos 1970, seria impensável a existência de uma entidade destinada a aglutinar pesquisadores em Jornalismo.

Mais que etapas sequenciais os três momentos, guardadas as suas particularidades, sempre estiveram articulados. A representação sindical dos jornalistas sempre teve clareza de que o reconhecimento da profissão passava pelo ensino universitário e os primeiros trabalhos teóricos na área como O problema da Imprensa, (1923), de Barbosa Lima Sobrinho ou O livro, o jornal e a tipografia, de Carlos Rizzini, (1946), Iniciação à Filosofia do Jornalismo, de Luiz Beltrão, (1960) e O Espírito do Jornalismo, de Danton Jobim, (1960) são obras de profissionais do jornalismo que ou ocupavam funções sindicais ou que se transformaram em professores e pesquisadores autodidatas. 

Como tive uma inserção muito jovem no mercado de trabalho, no começo dos anos 1980, pude acompanhar de perto a fase de transição, quando a formação nas Faculdades de Comunicação se encontrava numa esquizofrênica forma híbrida, com dois anos de disciplinas teóricas e dois anos de disciplinas práticas, como se fosse possível prática sem teoria e teoria sem prática. 

Na verdade, este modelo esquizofrênico era resultado de uma tentativa de ruptura com o modelo anterior, de total predomínio das práticas, como disciplinas desvinculadas de qualquer preocupação teórica mais ampla, de um ensino manualístico de técnicas e que existiu até a criação dos departamentos de Comunicação, no final dos anos 60.  Já na graduação da UFSM, em 1987, participei na condição de membro do Diretório Acadêmico, da Comissão que elaborou o novo currículo do Curso, que implantava as Diretrizes Curriculares de 1984, que obrigava ao ensino laboratorial e, ao mesmo tempo, acabou com o básico, articulando a formação teórico-prática do jornalismo do começo ao fim da graduação.

Até meados dos anos 1980, a pós-graduação em Comunicação estava concentrada no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília, com os doutorados, no Rio e São Paulo. Em 1989 a FACOMUFBA criou, na Bahia, o primeiro curso de Mestrado fora deste eixo. A maioria dos professores nos cursos de Jornalismo era somente graduado, raros eram os mestres e doutores e a pesquisa era mais exceção do que a regra. Na UFSM, por exemplo, em 1988, me tornei o primeiro bolsista PIBIC-CNPq, que então não era um programa institucionalizado nas universidades, da História do Departamento de Ciências da Informação. 

Em 1988, quando me associei à INTERCOM, que existia desde 1978, a maioria dos professores pouco participava dos congressos nacionais e menos ainda dos internacionais para apresentação de trabalhos de pesquisa. Na UFSM, por exemplo, havia apenas um professor, Edgar Prade, Doutor em Comunicação, titulado na Áustria, depois se agregou o professor Gustavo Quesada, na condição de Titular, Doutor em Comunicação em Wisconsin. E havia mais quatro professores cursando mestrado e dois cursando o doutorado, na USP, na UFRJ e na Metodista, em São Bernardo. 

A mudança de paradigma ocorreu nos anos 1990, com a institucionalização da pós-graduação em outras regiões brasileiras, Sul e Nordeste, processo que culminou nos anos 2000, com a existência de cursos de pós-graduação em Comunicação em todas as regiões brasileiras e com a exigência do Governo Federal, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, da recomendação da obrigatoriedade do doutorado para a contratação de docentes nas federais. 

Acompanhei ativamente este processo porque em 1990 comecei o Mestrado em Comunicação na ECO-UFRJ e participei da criação da Associação Brasileira dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS), em 1992, no Rio de Janeiro. Desde 1989, em Florianópolis, quando ainda era estudante, participava regularmente dos congressos da INTERCOM e minha participação se tornou ainda mais institucional quando me mudei para Salvador em fevereiro de 1993 para participar como Bolsista do CNPq das atividades do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. 

O primeiro movimento mais concreto para a articulação dos pesquisadores de Jornalismo em discussões específicas aconteceu em 1993, no congresso da INTERCOM, em Vitória, no Espírito Santo, com a criação do GT de Jornalismo, liderado pelo professor José Marques de Melo, primeiro brasileiro a defender uma tese de doutorado em jornalismo no país, em 1972. 

Naquela reunião, que se estruturou a partir das discussões com os colegas mais experientes, das gerações anteriores, todos doutores – José Marques de Melo, Muniz Sodré, Sérgio Mattos, Nilson Lage, Murilo Cesar Ramos – com os mais jovens em processo de doutoramento (Victor Gentilli, Paulo Roberto Botão, Gerson Martins, Sergio Gadini e eu, entre muitos outros), estiveram muitos colegas que participaram, dez anos depois, da fundação da SBPJor em 2003, no congresso na UnB. O grupo se fortaleceu com a realização em 1995, no congresso da INTERCOM, em Aracaju, do I Encontro Nacional Nacional de Professores de Jornalismo.

Era evidente a necessidade de espaços próprios para a discussão das especificidades da do ensino e da pesquisa em Jornalismo, considerando a multiplicidade de interesses, todos legítimos, mas muito diferentes, das demais práticas de Comunicação. O que ainda era insuficiente era a quantidade de doutores, pesquisadores plenos com capacidade de liderança institucionalizada para assumir o desafio político de romper com os paradigmas da pesquisa, até então, predominantes no Brasil. 

De algum modo, sempre soube, desde meados dos anos 90, porque convivia pelo menos há 10 com os principais pesquisadores da área, uma convivência que se institucionalizou ainda mais depois da minha ida para a ECO-UFRJ, em 1990, em congressos da INTERCOM e da COMPÓS, que caberia a minha geração a liderança deste processo. E tratei de me preparar para cumprir da melhor forma com a missão. 

Em vez de, terminado o Mestrado, entrar direto para o Doutorado em Comunicação na UFRJ, preferi ir para a Bahia e me juntar ao talentoso grupo de pesquisadores da FACOM-UFBA – Albino Rubim, Marcos Palacios, Wilson Gomes, Monclar Valverde, Sergio Mattos, Aloisio França Filho e Benjamin Picado -, que estava implantando a pós-graduação fora do eixo Rio-Brasília-São Paulo. Nos três anos que permaneci em Salvador participei ativamente da construção do Programa e da COMPÓS, coordenando o GT de Comunicação e Política (1995-1996). 

E, em outubro de 1996, me transferi para Barcelona para cursar o Doutorado em Jornalismo, defendido em 2000, porque, afinal, se queria institucionalizar a pesquisa em Jornalismo, o mais recomendável era que eu tivesse um título de Doutor em Jornalismo, o que então não era possível no Brasil.  Na Autônoma era possível escolher três tipos de títulos: Doutor em Comunicação, Doutor em Comunicação e Jornalismo e Doutor em Jornalismo. Eu não tive a menor dúvida: o meu título é de Doutor em Jornalismo. 

O movimento final para a criação da SBPJor, que desde o começo sempre se desenvolveu como resultado de um processo coletivo e, se de algum modo me coloco no centro na parte que me toca no processo é porque reconstituo a história a partir do ponto que mais conheço, a minha vivência pessoal, é somente como contraponto ao movimento coletivo que acabou por direcionar a minha própria formação e as suas prioridades. 

Em 2003, durante as conversas nas Jornadas de Jornalismo, convocadas pelo colega Jorge Pedro Sousa, na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, chegamos à conclusão que as condições objetivas para o lançamento da SBPJor estavam todas dadas, a começar pela existência de uma comunidade de mais de 100 doutores, todos com graduação em Jornalismo. Como era de bom alvitre, em termos políticos, eu consultei ao professor José Marques de Melo, nosso decano, que estava presente. E o professor Marques de Melo, como era bem do seu estilo, disse: “- Ótima ideia. Tem todo o meu apoio. Vá em frente”.

Dois meses depois, aproveitando a reunião dos pesquisadores no GT de Jornalismo da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS), em Recife, no mês de junho, foi marcada uma reunião para aprovar um Comitê Nacional para formalizar a convocação do I Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, em Brasília, nos dias 28 e 29 de novembro, que tinha como um de seus objetivos a fundação da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR). 

A Comissão Organizadora estava formada por pesquisadores da Bahia, Brasília, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Com mais de 100 participantes e 66 trabalhos apresentados, o congresso terminou com a aprovação dos estatutos e a eleição da primeira diretoria da SBPJOR. 

E eu, que havia me preparado para liderar o processo acabei sendo eleito presidente de uma entidade que tinha em sua diretoria executiva e conselhos, pesquisadores das diferentes gerações vivas, a começar pelo professor José Marques de Melo, que se tornou o associado número 1 da entidade, presente que esteve no congresso de Brasília. O vice-presidente era o professor Luiz Gonzaga Mota, da UnB, um dos decanos da área, ao lado do professor Marques de Melo. O secretário Administrativo era o professor Victor Gentilli, UFES. A nominata completa está disponível na página da SBPJor.

 

2)    Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Em primeiro, o convencimento político. Não é fácil ter a coragem política para mudar paradigmas e deslocar os poderes de fato. E, no Brasil, a lógica dominante era, como ainda é, a da Comunicação e não a do Jornalismo. No meu ponto de vista, não existe nenhuma contradição epistemológica irreconciliável entre Comunicação e Jornalismo, porque, ao fim e ao cabo, o Jornalismo é uma forma de Comunicação, mas o meu ponto de vista não é idêntico ao de outros colegas. 

Há, como havia muitos mais na época, quem sustente que o Jornalismo é irreconciliável com a Comunicação. Do mesmo modo que havia muitos entre os pesquisadores de Comunicação para quem o Jornalismo nada mais é que uma especialidade, uma simples prática social e que não tem status científico. Mais ou menos aplicando a mesma lógica das Ciências Exatas para julgar as Ciências Sociais e Humanas, como se a diversificação da práticas científicas não fosse uma constante na História da Humanidade e como se umas Ciências pudessem determinar o que são as práticas das demais, quando, na verdade, cada ciência constrói seus próprios objetos, suas próprias metodologias e institucionaliza suas próprias práticas. 

No período dos contatos preliminares e principalmente depois da fundação da entidade eu posso falar por mim. Eu sofri muitas pressões e ataques. E, naturalmente, muitas perseguições. O que somente aumentou depois que sai da direção da SBPJor em 2007 e, por decisão pessoal, comuniquei a todos, durante nossa assembleia geral em Aracaju, que jamais voltaria a participar de suas diretorias ou conselhos depois de dois mandatos. Dava a minha missão por cumprida. E o futuro da entidade estava nas mãos da nossa coletividade. Então, o primeiro desafio era convencer aos colegas. E a acolhida da comunidade, com mais de cem participantes no primeiro congresso e 66 trabalhos apresentados demonstrou que a comunidade estava suficientemente madura para aceitar o risco político de andar pelas próprias pernas. 

O segundo desafio era a estruturação acadêmica, financeira e administrativa da entidade, pressupostos para a sua legitimação entre as agências de fomento, entre as demais associações da área de comunicação, nos órgãos de governo, na comunidade científica brasileira de modo mais amplo e nas empresas patrocinadoras. Como a diretoria era composta por alguns dos mais experientes e talentosos pesquisadores de diferentes gerações, que reunia pesquisadores seniores, formados no final dos anos 60 e no começo dos anos 70, até pesquisadores bem mais jovens, com doutorado terminado no final dos anos 90 e começo dos 2000, conseguimos superar as imensas dificuldades iniciais, em particular, as resistências políticas, demonstrando que tínhamos vindo para somar em vez de para “esfacelar o Campo da Comunicação”, como era uma das críticas maldosas que recebíamos nos bastidores da área. Tivemos uma política agressiva na divulgação da SBPJor na Capes, CNPq, Ministério da Educação, Ministério da Ciência e Tecnologia e na SBPC.

O terceiro desafio era a definição de um plano de metas. E mais do que isso a sua concretização porque  era necessário, na prática, demonstrar que a SBPJor tinha nascido para contribuir para a diversificação e a melhoria das práticas de pesquisa na área de Comunicação no Brasil. E definimos um plano arrojadíssimo que tinha entre outras metas: 1) a criação da primeira revista científica totalmente editada em inglês no nosso país; 2) o reconhecimento pelas agências de fomento da nossa entidade;  3) a realização de congressos internacionais para divulgar a nossa entidade entre a comunidade científica internacional; 4) a participação ativa em todas as discussões sobre políticas acadêmicas na área de Comunicação para defender os interesses estratégicos dos pesquisadores em Jornalismo; 5) a Criação de um Prêmio para os melhores Pesquisadores da área, 6) o aumento do número de pesquisadores bolsistas de produtividade do CNPq da subárea de Jornalismo, 6) a institucionalização de redes de pesquisa e, por fim, 7) a mais estratégica e, até então, impensável e para muitos ainda hoje inaceitável, a institucionalização dos programas de pós-graduação acadêmicos em Jornalismo. 

Com um trabalho incansável de toda a diretoria e com o apoio entusiasmado de toda a comunidade ao longo de 4 anos fomos cumprindo uma a uma cada uma das metas. E é bom que se diga que, para que fique bem claro a proeza política que conseguimos enquanto diretoria e coletividade, que algumas propostas, como a criação da BJR, totalmente em inglês, que foi uma proposta minha, não era consenso nem mesmo dentro da própria diretoria.  Em dois anos nos estruturamos, legitimamos a entidade nas agências de fomento e na comunidade científica, em 2005 organizamos o primeiro congresso internacional, que contou com a participação dos colegas ibero-americanos especializado no ciberperiodismo, em Salvador, e, em 2005, lançamos a BJR, que hoje está aí, com uma publicação ininterrupta ao longo dos últimos 15 anos, reconhecida como uma das melhores revistas científicas de nossa área e uma referência para os colegas de todo mundo e realizamos o segundo congresso internacional, a Brazil Conference, na UFRGS. Alguns de meus artigos publicados na BJR tem mais de 10 mil visitas e são citados por colegas dos Estados Unidos à Rússia, da Argentina à Espanha, de Portugal ao Kazaquistão. E, coincidentemente, no ano em que entreguei o cargo de presidente, fundamos o primeiro Programa de Pós-Graduação em Jornalismo no Brasil, na UFSC, hoje, com Mestrado e Doutorado. 

 

3)    Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Se uma entidade resulta da ação coletiva de uma comunidade, não é nem bom e menos ainda recomendável que se confunda com as metas de uma diretoria e menos ainda de um de seus membros. O sucesso das entidades como a SBPJor e dos projetos desenvolvidos são a demonstração da competência das diretorias para, por um lado, perceber as demandas estratégicas das suas comunidades e, por outro, conseguir o apoio para a transformação das metas em projetos bem sucedidos e continuados. 

A História da área de Comunicação no Brasil é uma antes e outra depois da criação da SBPJor. Antes da criação da SBPJor a única entidade específica que existia na área era a SOCINE, dos colegas de Cinema e Audiovisual e que não se considerava como uma sociedade científica, nos moldes propostos pela nossa associação. E a quem eu, particularmente, devo muito porque muito aprendi com a sua experiência, que era anterior a nossa.  Depois da nossa fundação houve um movimento generalizado de constituição de associações científicas congregando os colegas de diversas subáreas da Comunicação. Eu mesmo ajudei diretamente na fundação de duas, a ABRAPCORP e a COMPOLÍTICA, trocando ideias e repassando informações para os colegas Margarida Kunch e Wilson Gomes. 

O movimento de aglutinação dos pesquisadores por subáreas se consolidou tanto que em 2008 confluiu para a criação durante congresso na Universidade Federal do Rio Grande do Norte na criação da Federação Brasileira das Associações Acadêmicas e Científicas da Comunicação (SOCICOM) e, em 2010, na Ilha da Madeira, em Portugal, da CONFIBERCOM, Associação Ibero-americana das Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação. A SBPJor teve participação ativa na criação destas duas entidades, que mudaram o mapa da representação política na área da Comunicação no Brasil e na Ibero-américa. E, na condição de representante da SBPJor, eu participei das primeiras diretorias da SOCICOM e da CONFIBERCOM. 

O que me parece evidente é que uma entidade que se mantém viva e atuante ao longo de 17 anos, possui centenas de associados, mantém relações com os principais pesquisadores internacionais na nossa área científica, está plenamente legitimada na comunidade científica de comunicação, nas agências de fomento em nível federal e edita, com o apoio destas agências, uma das revistas científicas mais qualificadas da área de Comunicação, com um conselho científico de padrão internacional vem cumprindo muito bem com as suas funções. 

Naturalmente, o que um pesquisador pensa, individualmente, sobre o que é ou deve ser uma entidade nunca é o mais importante. O mais relevante é o que a entidade é e, de alguma maneira, a entidade é sempre um espelho do que é a sua comunidade. E não cabe a mim julgar a SBPJor, mas a sua comunidade de pesquisadores, que tem a responsabilidade de, coletivamente, definir e atualizar periodicamente as metas e estratégias da nossa associação. 

 

4)    Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

O mérito do trabalho da SBPJor se pode verificar em diversas frentes, desde a legitimação do jornalismo como área científica com status próprio, passando pela consolidação dos espaços de apresentação de trabalhos como os congressos anuais e as redes de pesquisa, pela criação de espaços de publicação como a BJR, até a institucionalização dos pesquisadores, com a titulação de mestres e doutores em Jornalismo. Não é em qualquer país que se pode ter o privilégio, – quem é da área de Jornalismo -, de obter a sua formação, da graduação ao doutorado, em sua própria área. Em termos de identidade profissional e de fortalecimento teórico-metodológico é um diferencial e tanto. Um diferencial que poucos países têm.

É um legado que somente quem viveu, no passado, quando o ensino de Jornalismo era ainda muito mais tecnicista do que é hoje, praticamente quase ninguém tinha mestrado e doutorado entre os professores, não existia a iniciação científica como um programa institucionalizado nas universidades e o pesquisador em Jornalismo não tinha nenhum status próprio na área, era pouco reconhecido pelas agências de fomento e a circulação da produção científica dos pesquisadores brasileiros no exterior era muito pequena, sabe o quanto faz a diferença na vida de um pesquisador. A circulação ainda é muito pequena, mas, cada vez mais, existe a possibilidade, para quem estiver interessado em saber o que se está produzindo em termos de pesquisa em Jornalismo no Brasil, de se ter acesso amplo e universal, gratuitamente, aos resultados das nossas pesquisas. 

Em todos estes aspectos a SBPJor, ao longo de seus 17 anos de atuação, vem deixando um legado de grande relevância. Os congressos anuais estão plenamente consolidados, são apoiados pelas principais agências de fomento à ciência no Brasil (CAPES e CNPq e pelas agências estaduais), tem sido realizados em quase todas as regiões brasileiras, em universidades públicas e privadas, em capitais como Rio e São Paulo e, em cidades menores, como Palhoça, SC, e Santa Cruz do Sul, RS. Em diversas regiões, no Nordeste, no Centro-Oeste, no Sudeste e na região Sul. Há várias redes de pesquisas institucionalizadas, com atividades permanentes e produção contínua e sistemática apresentada todos os anos aos associados em nossos congressos. 

 

5) Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Há quatro que considero paradigmáticos. A generosidade do professor José Marques de Melo, de participar do primeiro congresso, assinar a ata de fundação como associado número 1 e emprestar todo seu prestígio para a legitimação da SBPJor. Na condição de decano entre os pesquisadores vivos, com formação da graduação ao doutorado em Jornalismo e, sabendo-se das resistências políticas existentes, a presença do professor Marques de Melo, era como que uma certa garantia para quem tivesse algum medo de ultrapassar os limites institucionais então consagrados na área de Comunicação. 

O segundo tem a ver com o reconhecimento institucional de outro decano de nossa área, o professor Nilson Lage. No congresso da SBPJor, em Florianópolis, eu tive o prazer de entregar ao professor Nilson, professor titular na UFSC, a placa de Honra ao Mérito e o título de associado emérito pela contribuição de suas atividades e de sua obra para a construção da área de Jornalismo no Brasil. Uma sociedade científica é uma consequência das ações individuais e coletivas de gerações de profissionais, docentes e pesquisadores. E uma comunidade de pesquisadores que tem Nilson Lage e José Marques de Melo entre seus decanos, então os dois vivos, tem muito do que se orgulhar e a plena certeza da fortaleza de suas fundações. 

O terceiro está relacionado com a escolha do patrono do nosso Prêmio para os melhores pesquisadores da comunidade científica. A comunidade de pesquisadores que estava presente no congresso era formada por colegas de diferentes gerações. Desde os nossos decanos, até os mais jovens, da minha geração e os ainda mais jovens, em fase de titulação. Havia três nomes de peso apoiados pelos pesquisadores mais seniores, Barbosa Lima Sobrinho, Danton Jobim e Pompeu de Sousa. O meu candidato e, das gerações mais jovens, era Adelmo Genro Filho. E eu fiquei muito feliz, por tudo que Adelmo representa, em termos mundiais para pesquisa em jornalismo, por mais desconhecido que ainda seja fora do Brasil, – como aliás o são Otto Groth, na própria Alemanha, e Jun Tosaka, no Japão, – tenha sido escolhido pela maioria dos nossos associados. 

O último tem a ver com a institucionalização da SBPJor, a sua afirmação política e o seu caráter estratégico para a legitimação das atividades científicas dos pesquisadores. Em 2005, sem qualquer consulta prévia à comunidade científica, o CNPq resolveu encaminhar de cima para baixo uma proposta de alteração na Tabela das Áreas de Conhecimento que relegava o Jornalismo a condição de especialidade, perdendo o status de subárea. 

Naturalmente, era um ataque frontal aos interesses estratégicos de nossa comunidade de pesquisadores. E a SBPJor teve atuação decisiva para reverter a situação, articulando as entidades profissionais como a FENAJ e as acadêmicas como a ABEJ para a criação de uma frente em defesa da manutenção do Jornalismo com subárea dentro da Comunicação. Mantivemos reuniões com representantes das associações da área de Comunicação como COMPÓS e INTERCOM e participamos de duros debates no CNPq e na CAPES. E, ao final, garantimos o nosso status, o que teria sido muito mais difícil, se não tivéssemos uma sociedade científica para defender nossos interesses. Superamos o nosso batismo de fogo. E, com méritos.

 

6)    Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

A SBPJor representa o acúmulo de gerações sucessivas de profissionais, professores e pesquisadores em Jornalismo. Mais de duzentos anos, no caso brasileiro. E tem a responsabilidade de propor a agenda estratégica e orientar as prioridades de atuação para os pesquisadores. Como todas as atividades, o jornalismo enquanto prática social está passando por profundas mudanças em termos de institucionalização profissional, organizacional, tecnológica e econômica em decorrência do processo de reestruturação do capitalismo em escala mundial. 

E uma das caraterísticas diferenciais dos processos de inovação em curso é que todos são impensáveis sem o desenvolvimento de inovações teóricas, metodológicas, processuais, técnicas, de produtos e tecnológicas. O que significa que as atividades científicas estão no próprio coração da definição das práticas profissionais.

Desde muito antes de ter liderado a SBPJor eu defendo que a legitimação do Jornalismo enquanto área de conhecimento passa pela ruptura com uma tradição que condena os pesquisadores da nossa área a simplesmente reproduzir o uso de métodos e teorias oriundas de outras área científicas mais consolidadas e ao desenvolvimento de pesquisas teóricas e, que, na verdade, em sua maioria são descritivas e pré-teoréticas. 

Um de nossos calcanhares de Aquiles é a inexistência sistemática das pesquisas aplicadas, – em termos institucionalizados, ficando na dependência de ações isoladas de alguns poucos pesquisadores – como comprovei em estudo desenvolvido sobre os trabalhos apresentados no GT de Jornalismo da COMPOS e nos congressos da própria SPBJOR e que publiquei na BJR e na Pauta Geral. Não existe a menor possibilidade de desenvolvimento de práticas jornalísticas alternativas sem o desenvolvimento de pesquisas aplicadas para a criação de novas metodologias, processos, produtos, técnicas e tecnologias. É o principal desafio dos pesquisadores e programas de pós-graduação em Jornalismo e de Comunicação.

Há 15 anos atrás, quando do lançamento da revista da COMPÓS, em 2005, eu publiquei um texto que considero um marco nesta discussão. De lá para cá, pouco mudou. Hoje temos quase 50 programas de pós-graduação em Jornalismo e Comunicação com nível de doutorado (46), mas muito pouco mudou em termos da instituição de novas práticas de pesquisa, de novas relações estruturantes e de produção de teorias inovadoras e institucionalização de complexos locais de inovação em jornalismo articulados por estes programas de pós-graduação.  Não se trata de caso isolado, o caso brasileiro.

 A esquizofrenia da desarticulação entre teoria e prática no ensino e na pesquisa em jornalismo é uma aberração por todas as partes – o que muda são os graus e as formas de manifestação – que tem a ver com a História de constituição do campo acadêmico e científico. Não se trata de tarefa fácil porque pressupõe a ruptura com toda uma tradição. E a quase totalidade dos pesquisadores se formou para produzir e reproduzir teorias e metodologias de outras áreas de maior prestígio. 

É urgente repensar as teorias, as metodologias e avançar na institucionalização das pesquisas aplicadas. Não tem outro jeito. E, mais ainda no contexto nefasto em que vivemos, do mais brutal ataque à produção científica desde o Governo Collor de Mello.  E é aí que a SBPJor pode fazer toda a diferença, ao  manter viva na memória das novas gerações as contribuições das gerações mais velhas, ao definir prioridades e agendas de pesquisa para manter a nossa comunidade na vanguarda das pesquisas no mundo.

Luiz Motta

Trajetória:

Me formei em jornalismo na UFMG. Já trabalhava há três anos como repórter do Jornal do Brasil. Em 1968/9 obtive uma bolsa Sociedade Interamericana de Imprensa para fazer o mestrado nos Estados Unidos, na Indiana University. Em 1970 fui contratado pelo Departamento de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) após concurso de títulos. Em 1973 voltei aos Estados Unidos a fim de fazer o doutorado junto à University of Wisconsin, concluindo em 1977. Voltei à UnB onde trabalhei como docente até 1981. Neste ano fui contratado pela Friedrich Ebert Stiftung para trabalhar junto ao Centro Internacional de Estudos Superiores em Jornalismo em Quito, Ecuador, onde ofereci oficinas e seminários a comunicadores de toda a América Latina. De volta ao Brasil, fiz assessoria à Unicef na África, em 1984. Em 1985 montei (com um sócio) a produtora independente Ema Vídeo. De 1985 a 1991 produzi, dirigi e apresentei o programa Estação Ciência, da Rede Manchete de Televisão. Em 1995 fui convidado pelo ministro Antonio Houaiss a assumir o cargo de Secretário Nacional de Cultura do MINC. No ano seguinte o Governador Christovan Buarque me nomeou seu Secretário de Comunicação do Governo do Distrito Federal, onde fiquei até 1999. Terminado o governo, assumi a Coordenação de Comunicação da Liderança do Partido Socialista Brasileiro na Câmara Federal, onde fiquei até 2000. Neste ano voltei a docência em dedicação exclusiva na UnB. Em 2002-2003 fiz estágio de pós-doutor com o Prof. Lluíz Duch na Universitat Autònoma de Barcelona. De volta à Universidade de Brasilia me dediquei exclusivamente ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação, o qual coordenei por três vezes. Neste Programa orientei cerca de 50 dissertações e teses de doutorado, além de orientações de pós-doutores. Fui pesquisador do CNPq e lider do Grupo de Pesquisas Narrativas Jornalística e História do Presente. Em dezembro de 2012 me aposentei como Professor-Titular da Universidade de Brasília. Em 2013/14 fui professor-visitante do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, onde residi até 2017. Em 2018 voltei a residir em Brasilia. Durante minha vida acadêmica participei de dezenas de congressos e seminários no Brasil e exterior. Nas minhas pesquisas, livros e artigos mantive a posição de um observador crítico da mídia. Fiz parte do Conselho Editorial de várias revistas científicas, publiquei artigos e livros no Brasil e no exterior. Fui co-fundador da Associação Latino-Americana de Pesquisadores da Comunicação (ALAIC) e da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, sendo o primeiro editor da revista Brazilian Journalism Research. Atualmente resido em Brasilia onde me dedico à literatura e fotografia, e sou colunista político do site Congresso em Foco.

 

ENTREVISTA:

1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Entre as atividades do campo acadêmico da comunicação, o jornalismo é muito particular. Envolve questões singulares que não estão presentes em outras áreas. O jornalismo não é um campo conceitual surgido de reflexões intelectuais. Há uma profissão dinâmica, ativa, presente no cotidiano das pessoas. A pesquisa em jornalismo exige do pesquisador um imperativo envolvimento com a atividade profissional, que não pode jamais ser relegado. A ideia de constituir uma entidade que se orientasse especificamente para o campo de pesquisa do jornalismo surgiu da consciência de pesquisadores dessa singularidade. A ideia estava madura na mente de muitos pesquisadores na virada do milênio. As entidades existentes, particularmente a Compós que abrigava a maior parte dos pesquisadores da área, estavam muito comprometidas com os estudos culturais, ciências da linguagem, recepção estética, etc. A pesquisa em jornalismo tangencia todas essas áreas, mas traz exigências conceituais e metodológicas próprias. A ideia de criar a SBPJor surge dessa inquietação. Ainda na década de 1980 foi criado no âmbito da Compós o Grupo de Trabalho em Jornalismo para abrigar os pesquisadores orientados para este campo. Tive a honra de estar entre eles. Minhas pesquisas, desde o mestrado e doutorado nos Estados Unidos, sempre tiveram como objeto o jornalismo e levaram em conta as questões da profissão. Minha dissertação de mestrado (1973) na Indiana University versou sobre as mudanças no conteúdo dos jornais do Brasil após a implantação da censura em dezembro de 1968. Minha tese de doutorado (1977) na University of Wisconsin abordou a ideologia e o processo de decisão editorial no jornalismo brasileiro. Meu desejo era compartilhar questões conceituais e metodológicas com pesquisadores que trabalhavam com um objeto e categorias semelhantes às minhas. Dentro da Compós, o GT de Jornalismo cresceu rapidamente, passou a ser aquele no qual o maior número de trabalhos eram submetidos cada ano. Ficou evidente que os estudos do jornalismo proliferavam nos cursos de pós-graduação e não tinham, no âmbito da Compós, espaço para se expandir. Ficou evidente também que um número cada vez maior de pesquisadores necessitavam de um âmbito específico onde discutir seus estudos do jornalismo. A ideia de uma entidade própria nasceu, portanto, dentro da Compós, particularmente nas últimas reuniões do GT de Jornalismo na virada do milênio. O grupo estava maduro. A ideia se concretizou finalmente na reunião de Brasilia em 2003, quando a SBPJor é criada por mais de 100 pesquisadores. Me orgulho de estar no grupo original. Foi um enorme prazer trabalhar nos primeiros anos da SBPJor com meus colegas e amigos Francisco Karam, Victor Gentilli, Márcia Benetti, Eduardo Meditsch, Beatriz Becker, Alfredo Vizeu, Dione Moura, Marcos Palácios, J. L. Proença, Zélia Adghirni, Cláudia Lago, o nosso primeiro presidente Elias Machado e outros. Tempos heróicos, de muita historia, muita garra, e muita dedicação para consolidar no país a pesquisa do jornalismo. 

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Como não poderia deixar de ser, a criação da SBPJor despertou incialmente o ciúme de pesquisadores de outras áreas da comunicação. Uma entidade nova com vôo próprio atraiu muitos pesquisadores. Até certo ponto, a nova entidade dividiu o campo, disputou recursos, produziu encontros nacionais concorridos, e editou uma revista independente. Os ressentimentos iniciais foram, entretanto, gradualmente sendo diluídos na medida que a nova entidade se consolidava. Ficou cada vez mais evidente a singularidade da pesquisa em jornalismo, o que justificava um corpo organizado de pesquisadores voltados para o seu objeto próprio. Uma segunda dificuldade foi financeira. Os primeiros recursos vieram das anuidades pagas pelos próprios pesquisadores, o que atesta a vontade de consolidar uma entidade independente. Não eram suficiente para custear todas as atividades entretanto, e foi necessário recorrer à ajuda de cada universidade e outras fontes. Uma luta. O apoio das universidades e o financiamento de agências nacionais de fomento tornaram possíveis as necessárias reuniões periódicas da diretoria, os custos cartoriais e a edição da revista Brazilian Journalism Research. A entidade firmou-se, consolidou-se, conquistou seu espaço e sua identidade própria.

3. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós:

Fui designado pela primeira diretoria da SBPJor de editar bi-anualmente a Brazilian Journalism Research, a revista da entidade. Éramos ambiciosos, a revista nascia grande: o primeiro periódico do campo da comunicação no Brasil a ser editado em inglês com pretenções de circular a nível mundial. Assumi com muita coragem a tarefa de editor, que parecia quase impossível de realizar: produzir uma revista de alto padrão científico, primorosamente editada em inglês quando as circunstancias eram bastante adversas. Grana curta, nenhuma estrutura de redação, projeto editorial ainda por fazer. Não era pouca coisa. Não tínhamos sequer o projeto gráfico da revista, que lhe conferiria identidade própria. O conteúdo teria de ter alta qualidade para conquistar pesquisadores do país e do exterior, e demonstrar às agencias de fomento que a SBPJor viera para ocupar o seu lugar no âmbito científico. Precisávamos também constituir o Conselho Editorial da revista, a ser composto por pesquisadores brasileiros e estrangeiros de renome. Tocou a mim fazer todos os contados, incluindo os internacionais. As circunstancias, entretanto, não favoreciam. Não havia uma equipe administrativa nem corpo editorial. Recém criada, a entidade ainda não era conhecida entre pesquisadores, professores e estudantes de jornalismo do Brasil, muito menos do exterior. O numero de artigos, teses e pesquisas de qualidade naquela época era modesto. Foi uma aventura obter o registro do ISSN, criar o projeto gráfico, convencer os autores a enviar os artigos em inglês, fazer a avaliação desses artigos, preservar a qualidade do conteúdo, escrever o editorial, realizar a correção ortográfica de textos em língua estrangeira, providenciar a foto da capa, acompanhar a impressão e distribuição, etc. Tarefas para um super-homem. O projeto gráfico foi desenhado por um professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasilia, Nanche Las-Casas, e as primeiras fotos da capa foram oferecidas pelo fotógrafo Orlando Brito, sem custos para a SBPJor. Com apenas uma estagiária em tempo parcial e a colaboração expontânea de minhas colegas Célia Ladeira e Dione Moura, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB, levamos adiante a tarefa com valentia. Em junho de 2005 saiu o primeiro numero da BJR, com uma cara correspondente ao que pretendíamos: uma conquista. Quando vimos a revista pronta, nem nós mesmos acreditamos que havíamos sido capazes. Em circunstâncias adversas, conseguimos botar na cena acadêmica brasileira e internacional uma revista bonita, tecnicamente bem editada, com artigos de qualidade e um conselho editorial composto por pesquisadores internacionais renomados. Em dezembro de 2005 lançamos o segundo numero. A revista tinha estofo, tinha qualidade. Com orgulho, podíamos enviá-la aos nossos colegas pesquisadores do Brasil e do mundo. Mas o parto foi a fórceps, só quem assistiu pode contar.  

4. A entidade correspondeu ao que eu esperava? Uma breve avaliação. 

Sim, a SBPJor corresponde plenamente ao projeto que o grupo original havia imaginado. Os objetivos principais foram alcançados. Superando a expectativa, a entidade é hoje reconhecida pelas agencias nacionais de fomento, pelos pesquisadores e professores nacionais e estrangeiros. Seus encontros são concorridos, sua revista é referência. O Premio Adelmo Genro Filho é uma realidade nacional, as redes de pesquisa se consolidaram e publicam regularmente, os lançamentos de livro são concorridos. Para constatar a diversidade de temas tratados pela SBPJor basta dar uma olhada nos trabalhos apresentados nos congressos e na BJR. Os temas cobrem questões diretamente relacionadas à prática profissional, tais como rotinas produtivas, coberturas diversas, transformações do jornalismo na era digital, etc. Da mesma maneira, os temas relacionados às reflexões mais conceituais do campo, como a ética, as teorias da notícia, etc. estão presentes nos congressos, redes e revistas da entidade. Há poucos dias a SBPJor promoveu um balanço critico da prática jornalística na cobertura do corona-virus, no qual pesquisadores renomados ligados à entidade fizeram um balanço critico da cobertura do assunto. Um tema de atualidade, demonstrando que a SBPJor não é só uma entidade de pesquisa, mas também de crítica do jornalismo. Percebo que tem sido assim: sem se descuidar das preocupações científicas e do ensino, a SBPJor tornou-se uma entidade importante também para a crítica da profissão. Tenho a impressão que qualquer autor que quiser hoje fazer um balanço da pesquisa em jornalismo no Brasil ou quiser fazer uma avaliação crítica de longo prazo do jornalismo brasileiro terá necessariamente de consultar os anais e as revistas da SBPJor. A BJR, da qual tive a honra de ser o primeiro editor por quatro anos seguidos, é publicada em inglês, espanhol e português, está indexada em várias bases de dados, já publicou quase 300 artigos. É hoje uma revista brasileira de qualidade acadêmica reconhecida internacionalmente. Como co-fundador da SBPJor e da BJR e um maduro pesquisador do jornalismo, me sinto recompensado quando me dou conta da presença da entidade no cenário da pesquisa em jornalismo no Brasil e no mundo. Parabéns à SBPJor! 

 

Claudia Lago

Trajetória:

 Claudia Lago, esteve na SBPJor durante gestões, inicialmente entre os anos de 2003 a 2005 no qual atuava como conselheira administrativa e depois em 2005 e 2007 como diretora administrativa. Retornou a SBPJor 6 anos depois como presidente da associação na qual permaneceu até 2017, assumindo posteriormente como conselheira científica. Jornalista e Doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo, Claudia Lago é Professora da Universidade Anhembi Morumbi.

ENTREVISTA:

1)    Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Na época, 2003, percebíamos a importância da pesquisa em jornalismo, dentro do Campo da Comunicação, mas que não era acompanhada por espaços mais amplos de discussão das pesquisas. A ideia de uma associação que permitisse o aprofundamento das discussões, a profissionalização das pesquisas, nos pareceu algo absolutamente essencial na época. Outra coisa que queríamos era uma entidade plural, administrada respeitando-se diferenças e sem ficar em torno de grupos consolidados apenas. E estávamos certos.

 

 2)    Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Acho que no primeiro momento os principais desafios foram colocar a entidade em pé, registrando, criando a infra-estrutura, enfim, a parte prática pesou bastante nos dois primeiros anos. Depois o desafio foi enfrentar a incompreensão de parte do campo da comunicação, que via a entidade (e a atacava) como divisionista. Uma coisa bem cansativa, que durou muito tempo e que ainda hoje volta e meia aparece em alguns discursos, anacrônicos e muito chatos, para ser bem sincera.  

 

3)    Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Acho que a SBPJor se fez uma instituição de apoio à pesquisa em jornalismo nos moldes que tínhamos pensado. Envolvendo investigadores/as de vários lugares e perspectivas, com renovações constantes (sem que os apoiadores tradicionais se afastem, o que é importante), com um congresso anual que se transformou no principal locus de discussão das pesquisas em Jornalismo e, especialmente, com uma perspectiva de internacionalização que existe desde os primeiros anos — haja vista a BJR, prova e marca disso.

 

4)    Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Acho que a entidade foi fundamental para a qualificação da pesquisa em jornalismo e para criar laços e relações com uma comunidade internacional. Essa valorização se reflete nas pessoas que estiveram e estão em volta da entidade. Não são poucas as histórias de pesquisadores que iniciaram sua trajetória nos congressos e a partir das redes de relação que estabeleceram dentro e pela SBPJor. 

 

5)    Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Tenho muitos. Importantes inúmeros, entre eles lembro que foi a SBPJor que, em 2013, passou a integrar o Fórum das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas e que ajudou a trazer este importante fórum para dentro da Comunicação. Mas os que mais gosto são aqueles dos bastidores dos congressos, com os quais sempre me envolvi muito. Desde a alegria do MacCombs ao ser apresentado às caipirinhas, ter que conseguir travesseiro anti alérgico para Pamela Shoemaker e tantas outras histórias saborosas. Para mim, especialmente, foi na SBPJor que conheci Ibrahim Saleh, que faleceu este ano prematuramente. Ibrahim me convidou para participar da IAMCR, entidade internacional em que atuo até hoje.  

 

6)    Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

Agora, além de continuarmos tendo que ampliar a qualidade das pesquisas e das redes, temos que conseguir nos organizar em relação às outras entidades científicas do campo das ciências sociais e humanas para resistir às intensas pressões que estão sendo feitas para o desmantelamento das áreas. A SBPJor, por sua capacidade aglutinadora, é essencial nesse momento.  

 

Francisco José Karam

Trajetória:

Francisco José Castilhos Karam foi professor da Universidade Federal de Santa Catarina, onde se aposentou como Professor Titular em março de 2016, depois de 32 anos na Instituição e 44 anos de trabalho.  Atuou como docente na graduação, no mestrado e no doutorado em Jornalismo, desenvolvendo atividades de ensino, pesquisa e extensão. Formado em Jornalismo pela Famecos/PUC de Porto Alegre, fez Mestrado na Universidade de São Paulo, sob orientação da profa. Dra. Cremilda Medina; doutorado na PUCSP, sob orientação do prof. Dr. Norval Baitello (incluindo um ano de doutorado sanduíche junto à Universidade Autônoma de Barcelona, com supervisão do prof. Dr. Lorenzo Gomis); e pósdoutoramento junto à Universidade Nacional de Quilmes, Buenos Aires, com supervisão do prof. Dr. Martín Becerra. Trabalhou em jornais, revistas e rádios do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e de São Paulo, incluindo o nanico Lutas da Maioria, Rádio Guaíba, Companhia Jornalística Caldas Junior, Diário do Sul , Veja e Nova Escola. Participou de programas de Jornalismo em Cuba e Estados Unidos. Coordenou a graduação e a pósgraduação em Jornalismo da UFSC, onde também foi chefe de Departamento por três gestões e atuou em disciplinas como Ética e Legislação do Jornalismo, Teoria do Jornalismo, Jornalismo e Cinema, História do Jornalismo, Políticas de Comunicação, Técnicas de Redação e Reportagem Especializada em Política. Foi um dos fundadores da Associação Brasileira para Pesquisa em Jornalismo (SBPJor) e da Rede Alfredo de Carvalho para a Historia da Mídia (Redealcar). Participou de comissões de ética junto ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina e da Federação Nacional dos Jornalistas. É autor dos livros Jornalismo, Ética e Liberdade (em quarta edição, 2014) e A ética jornalística e o interesse publico (2004), os dois publicados pela Summus Editorial, de SP. Pela editora Insular, organizou os livros Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica (com Rogério Christofoletti) e Jornalismo, Crítica e Ética (com Samuel Pantoja Lima). Tem alguns capítulos de livros e artigos científicos publicados em revistas do Brasil, Argentina, Portugal, Itália, Inglaterra e Espanha.

 

ENTREVISTA: 

1.Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Pelo acúmulo em outros países e pelo acúmulo de conhecimento sobre o jornalismo aqui, seria quase natural que em um dado momento profissionais da área, professores, pesquisadores, estudantes não quisessem ficar apenas como subprodutos, em seus trabalhos, de um campo geral da Comunicação em que grande parte dos estudos , em quaisquer eventos, tratavam majoritariamente da mídia jornalística.

 

2.Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Acredito que obter o reconhecimento de outros campos dentro da Comunicação, e mesmo fora dela, de que o Jornalismo teria condições de se impor, gradativamente, como área de estudos com base teórica , ética, estética e técnica especificas. E com métodos de trabalho distintos também. Muita desconfiança e crítica estiveram presentes desde a ideia inicial até hoje. Para isso, claro, o Jornalismo teria e tem que fundamentar seu campo a partir da história da própria filosofia e da história do trabalho, incluindo autores e áreas como a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Economia e a Literatura.

 

3.Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Acho que, em parte, sim. Tem, ainda, um longo caminho. E para isso contribuiu que o próprio fazer jornalístico majoritário, nas grandes empresas e conglomerados, tornouse um fazer cada vez mais submetido aos grandes interesses mercadológicos estratégicos mundiais nas áreas de Política e Economia, o que acaba afetando tanto a cobertura de tais áreas como as de Comportamento, Sociedade, Ambiente, Esportes, Cultura e por aí vai. Os estudos na área jornalística tem pouca visibilidade, por razões óbvias, na chamada grande mídia. Mas encontra fértil terreno para fundamentar suas bases em projetos jornalísticos alternativos, sobretudo em tempos de redes sociais. Ou em algumas exceções, e ainda assim parcial, como no caso da cobertura de alguns grandes meios sobre a pandemia do Covid19.  É uma permanente batalha pelo reconhecimento do pensar e do fazer jornalístico em sua especificidade e uma intensa jornada por políticas de comunicação, nacional e internacional, para garantir que os pilares jornalísticos se consolidem, permaneçam e se desenvolvam a cada minuto no planeta, em época em que o conceito de verdade entra em crise, seja com narrativas de falseamento da história, seja por meio de fake news, entre outros problemas.

 

4.Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Muitos trabalhos ilustraram e são referências para a  área jornalística, para a Comunicação e para a Sociedade, embora tenham relativo pouco reconhecimento social, dado que os espaços de visibilidade , compartilhamento e repercussão ainda não ganharam um debate sistemático consistente e duradouro sobre os resultados das pesquisas, diferentemente de áreas essenciais com impactos visíveis imediatos, como Economia, Sociologia, Epidemiologia. A percepção sobre a importância do jornalismo melhorou um pouco com a cobertura da pandemia do Covid19 no plano nacional e internacional. Mas precisa ser mais sistemático, contínuo, amplo…E sobre diferentes temas cotidianos muito relevantes socialmente que irrompem a cada hora no planeta.

 

5.Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Não lembro nada em particular, mas, sim, a história de cada um dos encontros que, em conjunto, dão uma dimensão da importância da entidade.

 

6.Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

É o reconhecimento por um público amplo, o que significa que ele deve conhecer a área, saber como funciona o jornalismo, seus procedimentos… E , assim, ainda validar o jornalismo como um campo muito importante para saber o que se passa, com credibilidade. E que isso ainda é importante para a vida dos indivíduos e a vida coletiva. As pesquisas podem ajudar bastante para isso.

 

Beatriz Becker

Trajetória:

Beatriz Becker foi sócia-fundadora da SBPJor, membro do conselho científico em quatro gestões, vice-presidente de 2009 a 2011 e editora executiva da revista Brazilian Journalism Research (BJR) neste mesmo biênio. Formou-se em Jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ) em 1982, e dez anos depois concluiu o Mestrado nesta mesma instituição. Antes de se formar na Graduação, já atuava como profissional de televisão e durante quase 20 anos foi repórter, editora, apresentadora, produtora e diretora de programas de TV. Em 1993, foi aprovada no concurso público para professora assistente da ECO-UFRJ. Coordenou o primeiro laboratório de Televisão da ECO; criou com os alunos o pioneiro laboratório e o site TJ UFRJ, o telejornal da Escola de Comunicação e o Curso de Jornalismo. Sua Tese foi eleita o melhor trabalho na categoria Doutorado na modalidade Jornalismo na Intercom em 2002. Dois anos depois, a docente foi contemplada com o prêmio Antônio Luís Vianna (ALV), Programa de Apoio ao Recém-Doutor, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Ensino da UFRJ e pela Fundação José Bonifácio. Em 2005, ela realizou o seu primeiro Estágio Pós-Doutoral no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e, em 2007, foi credenciada como docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ (PPGCOM-UFRJ). Concluiu o seu segundo Pós-Doutoramento no Department of Media and Communication na Goldsmiths, University of London, com apoio do CNPq, em 2015, quando criou o Grupo de Pesquisa Mídia, Jornalismo Audiovisual e Educação (MJAE). Entre 2014 e 2018 exerceu a vice – coordenação, e, em seguida, a coordenação do GT Estudos de Jornalismo da Compós. Participou duas vezes do Conselho de Ensino de Pós-Graduação (CEPG) da UFRJ como representante do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e exerceu a Coordenação de Pós-Graduação da ECO e do Conexão Pós em 2017, o 1º Encontro de pesquisas dos quatro PPGS da ECO. Em 2019, realizou a sua progressão ao cargo de professora titular do Departamento de Expressão e Linguagens da ECO. Em 2020, completa, 27 anos atuando como docente, 12 anos de aulas e orientações contínuas no PPGCOM, como professora permanente, e 10 anos de atividade como bolsista de produtividade do CNPq. Publicou 58 artigos científicos, 14 capítulos de livro e quatro livros. É autora de Televisão e Telejornalismo: Transições; A Linguagem do Telejornal; Pensando e Fazendo Jornalismo Audiovisual e coautora de Pantanal: A Reinvenção da Telenovela. Orientou mais de 50 alunos em atividades de extensão, 21 monografias de conclusão de curso, 14 pesquisas de Iniciação Científica e 17 Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado concluídas e em andamento. 

Entrevista:

1 . Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Sinto grande afeto por essa entidade científica, pois tive a oportunidade de construir, coletivamente, um projeto científico e político que deu certo e continua em crescimento, e também aprendi a pensar mais e de diferentes formas o jornalismo. Muitos jornalistas, como eu, haviam saído das redações para ingressar na docência e na pesquisa, exercendo reflexões críticas sobre o jornalismo como prática social e forma de conhecimento fundamental para as sociedades democráticas. Mas, as pesquisas em jornalismo e nossos trabalhos acadêmicos já transcendiam as investigações empíricas e também dialogavam com os estudos de Comunicação, interagindo e integrando outros campos de conhecimento, buscando destacar o complexo papel da mídia e do jornalismo tanto na manutenção das relações de poder quanto em suas mudanças, associadas a práticas socioculturais. Naquele momento, eu e pesquisadores de diferentes regiões do país, os quais admiro e se tornaram grandes amigos, acreditávamos que as pesquisas em jornalismo tinham uma singularidade teórica e metodológica que deveria ser reconhecida e aprofundada. A SPBJor poderia colaborar para a qualificação das investigações neste campo específico de conhecimento, em diálogo com outros saberes e entidades científicas, e contribuir para o ensino, as próprias práticas jornalísticas e a transformação social. Neste contexto, trabalhar para fortalecer as pesquisas em jornalismo era abrir possibilidades de pesquisas acadêmicas mais diversas, colaborar para aperfeiçoar as práticas profissionais e a formação de futuros profissionais e pesquisadores no país e contribuir para uma sociedade mais plural. Assim, trocamos ideias, trabalhamos muito, cada um empenhado em tarefas específicas antes planejadas e, em 2003, conseguimos realizar o 1º Encontro Nacional dos Pesquisadores em Jornalismo em Brasília, onde aprovamos o Estatuto da SBPJor e elegemos a primeira diretoria, da qual fiz parte como membro do conselho científico. Naquele momento, entendemos que era preciso aprender como conseguir recursos juntos às agências e aos possíveis patrocinadores interessados em apoiar esta iniciativa. Valeu o esforço, muito! A SBPJor se tornou para mim um ambiente democrático de interlocução e de aprendizado extraordinário na construção de pensamentos críticos e criativos.

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Não deixamos de enfrentar desafios na construção desta entidade científica, alguns deles semelhantes aos de outras entidades, como, por exemplo, reavaliar o que a Associação, efetivamente, oferece aos sócios com as anuidades quitadas, conseguir recursos, atrair o interesse dos pesquisadores para a manutenção de seus vínculos formais, atualizar as plataformas de submissão de artigos, o site e os sistemas de pagamento, repensar os custos e a qualificação da BJR, avaliar o formato dos congressos e estabelecer interações com outras associações de pesquisadores no Brasil e no exterior. Tivemos muitos avanços. Porém, penso que um dos maiores desafios da SBPjor foi a busca dialógica de valorização da qualidade das pesquisas em jornalismo frente a um certo descaso com as produções científicas desse campo específico de conhecimento ou a uma tendência acusatória de que o jornalismo deveria ser responsabilizado pelos problemas da área da Comunicação. Acredito que esta espécie de rejeição ao jornalismo não emergiu de maneira espontânea e resultou de ações e atitudes enrijecidas de diferentes grupos fora e dentro do campo. Mas, procuramos de diferentes maneiras contribuir para a superação dessa forma de segregação, em diálogo com a Comunicação e outros saberes, colaborando para a qualidade e a singularidade das pesquisas do campo e o reconhecimento da relevância do exercício do bom jornalismo para as sociedades democráticas, abrindo oportunidades para uma nova geração de pesquisadores e para o fortalecimento do conjunto da área da Comunicação. Penso que, ao longo do tempo, outras diretorias, conselhos e associados também tiveram este movimento. Considero que outro desafio importante e bastante particular da SBPjor foi fomentar um aprofundamento dos referenciais teóricos e metodológicos das pesquisas em jornalismo tanto no processo de criação quanto no seu desenvolvimento. Nesse sentido, o periódico científico da Associação, a Brazilian Journalism Research, teve, e continua a ter até hoje, um papel importante.

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por que?

A SBPJor sempre representou para mim um fórum qualificado e acolhedor para apresentação e compartilhamento de reflexões e de meus próprios estudos, e, sobretudo, uma oportunidade de poder contribuir para o avanço das pesquisas em jornalismo. É impressionante pensar que quase 20 anos se passaram desde que eu compartilhava com colegas pesquisadores em Jornalismo o reconhecimento da importância de criar a Associação Nacional dos Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) nos primeiros dois anos do século XXI. Desde a fundação da SBPJor em 2003, muitos projetos foram desenvolvidos e, hoje, a Associação dos Pesquisadores em Jornalismo já é madura, congrega cerca de 500 associados do país e do exterior e, junto com a pioneira revista científica bilíngue Brazilian Journalism Research, a BJR, consolidou-se como um espaço de formação de novos pesquisadores e para fomentar a qualidade e a diversidade das investigações produzidas e das redes ali articuladas, reconhecida no país e no mundo e que muito tem contribuído para a internacionalização das pesquisas em jornalismo e na área da Comunicação. Penso que esta não é apenas a minha opinião, pois um convite da editora Estação das Letras e Cores, de São Paulo me permitiu lançar o meu quarto livro, atualizando os resultados de pesquisas anteriores sobre televisão e telejornalismo e organizando os mais novos “achados” da investigação realizada no meu segundo pós-doutorado. Foi uma alegria poder compartilhar os resultados de minha pesquisa quando o livro foi lançado no Brasil em 2016 e o professor James Curran assinou o prefácio desta obra. Suas palavras  não deixaram somente a mim gratificada, mas também uma geração de  pesquisadores em jornalismo que se reuniu para criar e fortalecer a SBPJor, da qual me sinto honrada em fazer parte.

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em jornalismo?

O surgimento de cursos de mestrado específicos na área, a ampliação do número de linhas de pesquisa em programas de comunicação e o trabalho qualificado de pesquisadores de pós-graduação em Comunicação em diferentes PPGs que tomaram e tomam o jornalismo como principal objeto de estudo fortaleceram as pesquisas em jornalismo nos últimos anos. Mas, a expansão das pesquisas em jornalismo tem uma história. Na década de 1960, os primeiros estudos contribuíram muito para a renovação do Ensino de Jornalismo. Os pioneiros programas de pós-graduação em Comunicação no país, como os da UFRJ e da USP, colaboraram de maneira significativa para o surgimento de dissertações e teses em jornalismo amparadas em perspectivas dos estudos da área nos anos 1970. Os trabalhos sobre a história do jornalismo no Brasil ganharam relevância pela qualidade das investigações desenvolvidas e pelas articulações dos pesquisadores brasileiros com grupos de pesquisa interinstitucionais e internacionais naquele momento. Na passagem para os anos 2000, houve um movimento de expansão dos PPGs em Comunicação e os espaços para as pesquisas em jornalismo se ampliaram. Em 1999, um grupo de pesquisadores articulou a criação do Grupo de Trabalho específico em jornalismo na Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós), cujos trabalhos foram iniciados no ano 2000. A criação da linha de pesquisa “Jornalismo e Sociedade” na UNB em 2003, tornou-se um referencial para os investigadores no campo. Neste mesmo ano, pesquisadores em jornalismo também se reuniram e fundaram a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) com o intuito de qualificar e expandir as pesquisas em jornalismo no Brasil. Um novo ciclo de expansão do jornalismo nos PPGs se iniciou, o Mestrado em Jornalismo da UFSC foi aprovado em 2007, estimulando o surgimento de linhas de pesquisa específicas de estudos de jornalismo e novos programas. Hoje, há um conjunto crescente de conhecimentos em comunicação e jornalismo, reunindo teorias, metodologias, relações com a Graduação e com a prática profissional jornalística em distintas regiões do país. As pesquisas em jornalismo continuam a avançar, bem como o estabelecimento de interfaces com os demais fenômenos comunicacionais e experiências sociais. Assim, penso que a SBPjor teve e ainda tem um papel importante na história da expansão das pesquisas em jornalismo, incentivando a qualidade das investigações, colaborando para tornar suas particulares dimensões teóricas e metodológicas mais consistentes e, simultaneamente, estabelecendo diálogos com outros campos de conhecimento, e  abrindo espaço para compartilhamento dos resultados desses estudos, a formação dos futuros pesquisadores e uma atuação política mais efetiva com outras entidades científicas para o fortalecimento da liberdade de expressão e das práticas democráticas.

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Ao longo desses anos quase vinte anos, destaco dez momentos da história da SBPJor que guardo com muita estima em minhas lembranças e considero importantes para a Associação. O primeiro foi a reunião do grupo de pesquisadoras e pesquisadores dedicados a construir a SBPjor que ocorreu no Rio de Janeiro e na minha casa. O Rio foi escolhido por estar situado mais ou menos na metade do caminho entre as diferentes instituições em que atuávamos e nas cidades que habitávamos. Minhas filhas eram bem pequenas e foi preciso pedir um pouco de tranquilidade em alguns momentos dos acalorados debates para elas não acordarem. Cada um dos presentes conseguiu com esforço recursos próprios para viajar e participar desta reunião, motivado pelo fraterno desejo de concretizar o sonho de criação da SBPJor. Assim, as discussões se tornaram muito frutíferas. Foi possível alinhavar nesse encontro questões relevantes do futuro Estatuto da Associação e eu fiquei gratificada com a oportunidade de colaborado para este encontro. Outros dois momentos importantes que me recordo, ocorreram em 2003, no 1º Encontro Nacional realizado na UNB em Brasília, quando formalizamos a nossa proposta e criamos esta entidade científica e eu também propus aos colegas a criação da Coordenada de Telejornalismo, a qual foi então constituída em 2004, tornou-se, posteriormente, uma Rede e muito tem contribuído para os estudos de telejornalismo.  Não poderia esquecer do Auxílio à Editoração de Periódico Científico do CNPq em 2010, que recebi como editora executiva da Brazilian Journalism Research (BJR) no biênio 2009-2011 e membro da equipe responsável pela submissão do projeto de qualificação deste periódico científico da SBPJor, o que também muito contribuiu para alcançarmos o Qualis B1 da revista naquele período. Conseguir captar recursos da Petrobrás para a realização de um de nossos primeiros Encontros, mediante a apresentação de um projeto elaborado pelo grupo; colaborar na realização do I Brazil Journalism Conference e mediar uma das mesas; ser responsável pela edição do volume da BJR comemorativo dos 10 anos da SBPJ também foram episódios relevantes para mim e para o desenvolvimento das atividades previstas da Associação dos Pesquisadores em Jornalismo em diferentes dimensões. Porém, os dois momentos mais importantes da história da SBPjor para mim ocorreram em 2011, quando o 9º Encontro Nacional dos Pesquisadores foi sediado na ECO-UFRJ e lançamos o 1º Encontro de Jovens Pesquisadores em Jornalismo (JPJor), contribuindo para a formação e aprendizado de uma nova geração de pesquisadores nesse campo de conhecimento. Naquele momento, assumi a coordenação local do evento, atuando também como vice-presidente da SBPJor e editora do periódico científico Brazilian Journalism Research (BJR). O apoio da diretoria da Associação Nacional dos Pesquisadores em Jornalismo, da Direção da ECO, do PPGCOM e dos professores de jornalismo e de outros setores da Escola foi fundamental para o sucesso deste memorável Encontro da SBPJor. 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em jornalismo?

No século XXI, as narrativas jornalísticas passam por profundas reconfigurações decorrentes da digitalização dos meios e da produção, circulação e consumo de notícias em múltiplas plataformas. O jornalismo deixou de ser fonte exclusiva de informações sobre o cotidiano social e a abundância de conteúdos informativos disseminados nas redes sociais desafiam a confiabilidade na imprensa.  Porém, em um ambiente de desordem informativa o jornalismo também busca se reinventar e se fortalece como narrativa da experiência social partilhada por grupos sociais diversos. As tecnologias sempre tiveram direta relação com as práticas jornalísticas, mas a compreensão de seus usos e efeitos e do jornalismo como fenômeno sociopolítico, econômico e cultural se torna cada vez mais complexa na atualidade, demanda distintas e complementares abordagens, inter e transdisciplinares, e impõe significativos empenho aos pesquisadores. Neste contexto, acredito que existem possibilidades da SBpjor colaborar na expansão de novos conhecimentos, além de continuar a atuar no fortalecimento das redes, buscando aglutinar esforços para atualização dos processos de aprendizagem e a criação de laboratórios de pesquisa aplicada, estimulando a elaboração de projetos com atores sociais diversos para construção de modelos inovadores de produção e de negócios de conteúdos e formatos jornalísticos e incrementando a oferta de contribuições efetivas das pesquisas em jornalismo à sociedade. Nesse sentido, aponto como possíveis ações iniciais a utilização de tecnologias digitais e do novo site da Associação tanto para a oferta de seminários e cursos online quanto para encontros virtuais entre pesquisadores de redes e aqueles interessados em temáticas semelhantes, flexibilizando as agendas dos Encontros anuais, bem como o desenvolvimento de um plano editorial de produção de e-books para difusão das pesquisas que tomam o jornalismo como objeto de estudo, incorporando a riqueza das suas diferentes perspectivas. Mas, estes apontamentos são apenas sugestões, pois todos que já trabalharam e trabalham pela consolidação e crescimento da SBPJor e das entidades científicas enfrentam com dedicação e resiliência adversidades para realização de tarefas que podem parecer simples, mas exigem muito esforço e em muitos momentos só se tornam possíveis e menos solitárias porque nascem novos sonhos coletivos.

Antonio Hohlfeldt

ENTREVISTA: 

1 . Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

A criação da Intercom foi o primeiro grande passo para a aglutinação e articulação de pesquisadores no campo da Comunicação. Logo os participantes, contudo, sentiram a necessidade de se organizarem em grupos mais objetivos em relação aos interesses de seus estudos e pesquisas. Na medida em que foram se conhecendo melhor e conhecendo as pesquisas de seus colegas, surgiu a necessidade de se ampliarem os espaços destas relações. Os estudos sobre Jornalismo sempre tinham ocupado um espaço significativo das pesquisas na Intercom, como aliás, ainda hoje, e por consequência, a SBPJor foi a consequência desta amplitude, surgindo como a primeira instituição a se organizar a partir da Intercom, com total independência daquela, mas, ao mesmo tempo, mantendo relações bastante estreitas com ela, na medida em que boa parte de seus integrantes eram os mesmos e a Intercom tinha uma infraestrutura organizacional muito maior.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Os principais desafios foram, sem dúvida, objetivar os motivos pelos quais havia se pensado em formar uma nova instituição. Não houvera rompimento com a Intercom, pelo contrário, e por isso mesmo, o modelo organizacional daquela primeira entidade se tornou um pouco o modelo referencial para todas as demais entidades que iriam gradualmente se organizando, na medida em que o número de estudiosos dos fenômenos da Comunicação crescia e as especializações também se desenhavam com maior clareza.

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por que?

Não participei diretamente do primeiro congresso, em Florianópolis. Mas houve a decisão de incorporar novos associados, que seriam também considerados fundadores, desde que se juntassem à entidade num certo prazo. O trabalho que Aline Strelow e eu propusemos, não por um acaso, foi o levantamento e o estado da pesquisa em jornalismo no Brasil: ou seja, queríamos fazer um estado da arte dos estudos sobre jornalismo, inclusive com a preocupação explícita de chamar a atenção para a necessidade de os pesquisadores melhorarem a qualidade de seus trabalhos, esboçando com clareza objetivos e metodologias, que raramente vinham explicitados nos primeiros estudos.

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em jornalismo?

Creio que não apenas a SBPJor, mas outras entidades, como a Rede ALCAR, foram nascendo não por vontade de uns poucos, mas por necessidade de ampliação dos espaços e a variedade das pesquisas. Pessoalmente, participei e participo da Intercom, tendo sido inclusive seu presidente em dois períodos. Integrei grupos de análise de trabalhos e seleção de teses da SBJor e participei de diretorias, do mesmo modo que neste momento integro a diretoria da Rede Alcar. Acho que os pesquisadores mais velhos e com maior experiência devem integrar as diferentes instituições, reforçando-as e, ao mesmo tempo, reforçando a própria área dos estudos em Comunicação. Já aprendemos, com Pierre Bourdieu, que os diferentes campos estão sempre em disputa e tensionamento, então, é preciso que, por exemplo, diante de alguns desses campos, possamos nos unir e buscar adquirir forças, mas entre nós mesmos também devemos reconhecer nossas diferenças e especificidades. Aliás, é esta variedade e amplitude que nos dá força.

 

5.Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Não lembro, sinceramente, de nada mais especial. Mas registro que as diferentes diretorias da SBPJor sempre se preocuparam em distribuir-se regionalmente por todo o país e agregar diferentes pesquisadores, no sentido de garantir verdadeiramente a democracia na instituição.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em jornalismo? 

Estamos atravessando o pior momento da história da pesquisa, da educação, da universidade em nosso país. Sobretudo se pensarmos as áreas de ciências humanas, ciências sociais aplicadas e artes, letras, etc. Com maior ou menor consciência das consequências, há um evidente projeto em andamento para o desmonte, o silenciamento, a exclusão e a marginalização de nossos segmentos, sob a desculpa da presença de “comunistas” entre nós, o que é, por si só, ridículo e risível, não fosse trágico em suas reverberações. Nunca imaginei que em tão pouco tempo se conseguisse destruir tanto e tão amplamente. Está sendo pior que na ditadura mais recente (e que vivi, toda ela, como jornalista e em parte como aluno e depois professor). A ditadura tinha viseiras, era reacionária, mas não tinha o nível de estupidez, de ignorância e inconsequência que a atual administração pública federal evidencia. O que me preocupa é quantos anos necessitaremos depois, para recuperarmos o que foi destruído. Mais que isso, fico pensando que as lideranças político-partidárias brasileiras não têm  conseguido articular respostas condizentes para se buscarem e construírem alternativas. Por certo o que hoje vivemos é consequência de momentos anteriores, e isso é o mais grave: como evitar os dois extremos? Por onde encontrar as brechas que nos permitam avançar efetivamente? Já tínhamos enormes déficits educacionais e culturais no país, sobretudo pela falta de uma democracia real e efetiva, não apenas formal. Agora, piorou tudo, instituições como a Casa Rui Barbosa, a Cinemateca Brasileira, o Instituto Palmares, para só citar algumas, estão sendo esmagadas, transformadas em escárnio do que deveriam ser. A FUNARTE é um fantasma, melhor, é um zumbi, um morto vivo a se arrastar sem direção. Mais que nunca, o jornalismo é uma função social fundamental para que não haja maior esgarçamento ainda da sociedade brasileira. Enquanto pesquisadores, precisamos ter e transmitir a consciência sobre a importância do jornalismo, mas também estabelecer princípios de organização para a pesquisa e a resistência. A ditadura destruiu jornais, o atual desgoverno quer destruir o jornalismo, com a prática de fake news e a conceituação invertida sobre o que seja democracia, liberdade, constituição e por aí afora. É momento delicado, crítico, momento de passagem em que instituições como a SBPJor, articulada com outras instituições semelhantes, conseguindo sobreviver, ainda que com dificuldades, com autonomia diante deste desgoverno, precisam resistir e, através de seus encontros e debates, buscar caminhos, estabelecer diretrizes e denunciar, constantemente, a fraude e a mentira.

Zélia Adghirni

Trajetória:

Zélia Leal Adghirni, jornalista, professora e pesquisadora fez seus estudos de graduação em Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos anos 1970. Em seguida mudou-se para a França onde viveu mais de dez anos. Foi nas universidades francesas que realizou seus estudos de Pós Graduação : mestrado na Universidade Paris 2, doutorado na Universidade Stendhal ( Grenoble) e estágio pós doutoral na universidade de Rennes.

Foi professora na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasilia ( graduação e pós graduação) de 1993 a 2014 onde exerceu também as funções de chefe de departamento de Jornalismo e diretora da unidade. Aposentada, a autora dedica-se atualmente a projetos de pesquisa internacionais sobre jornalismo. Publicou dezenas de artigos em revistas acadêmicas da área, capítulos em livros científicos e participou de inúmeros congressos nacionais e internacionais.  

É membro fundadora da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPjor), da rede de pesquisa internacional (REJ) e foi durante o período de docência  bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e consultora da Capes.

Exerceu a profissão de jornalista durante cerca de 20 anos no Brasil , na França e no Marrocos , passando pelas redações do Estado de S. Paulo, Zero Hora, Folha da Manhã, Coojornal,  L’Opinion, Le Matin du Sahra, le Message de la Nation , Al Maghrib. Lecionou na Escola Superior de Jornalismo de Rabat ( Marrocos) e no Instituto de Estudos Políticos de Rennes  e foi professora visitante da Cátedra Unesco de Jornalismo no Instituto de Comunicação e das Mídias da Universidade de Grenoble.

 

Entrevista: 

 1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Como  professora e pesquisadora em jornalismo, tendo um longo histórico anterior de vida profissional como jornalista no Brasil e no exterior, sentia falta de uma plataforma específica para os estudos nessa área.Vejo o jornalismo com um dos mais importantes fenômenos de comunicação e informação dentro de uma sociedade democrática. Era necessário fundar um órgão que nos representasse junto às agências de fomento à pesquisa. Não havia espaço para o jornalismo na subárea da tabela das áreas de conhecimento da Capes, por exemplo.

Então, depois de muitas conversas paralelas entre pesquisadores nos congressos e eventos acadêmicos, decidimos partir para a criação de uma associação que efetivamente nos representasse com a devida credibilidade.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Primeiramente, precisávamos nos organizar. Um grupo de professores tomou a iniciativa de propor a realização do I Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. E isto aconteceu na Faculdade de Comunicação, da Universidade de Brasília, em 2003, quando cerca de cem pesquisadores de diferentes instituições aprovaram a criação da nossa associação. Tenho orgulho de dizer que os estatutos foram redigidos em minha casa, na Colina da UnB. Foi uma noite muito agitada, quando vários redatores, colados aos seus computadores, escreviam as dezenas de páginas que deveriam ser submetidas à aprovação na assembleia do dia seguinte.

Foi um sucesso. Elegemos a primeira diretoria por um período de dois anos. A mesma seria reconduzida por mais dois anos. E assim sucessivamente, a cada dois anos, até os dias atuais. A associação tem crescido agregando novos associados e incorporando novos temas de pesquisa acadêmica.

 

 3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Sim, com certeza. Como membro fundador,  posso dizer que tenho orgulho do que obtivemos até agora. A área do jornalismo se consolidou como pesquisa acadêmica e a abundância de trabalhos que recebemos a cada ano para avaliação e submissão nos encontros são a prova que atingimos nossos objetivos.

Nesta perspectiva, para a valorização da pesquisa brasileira entre os pares e também no exterior, foi criada uma revista científica editada em inglês. Os artigos publicados na BJR passam por uma rigorosa seleção  do comitê científico.

 

4.  Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Acho que construímos uma história de referência acadêmica. Atualmente temos parcerias de trabalho com várias instituições renomadas no Brasil e no exterior e conseguimos o reconhecimento dos agentes de fomento à pesquisa. Embora o momento que estamos vivendo politicamente traga muitos prejuízos para a área ( cortes de verbas de apoio a eventos, corte de bolsas, supressão da modalidade de  bolsa iniciação científica) acreditamos que, com nosso esforço, vamos superar essa fase.

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Já falei da agradável memória histórica de ter participado da redação do estatuto da SBPJor em minha casa, mas o que me enche de emoção foi ter sido agraciada com o prêmio Adelmo Genro Filho de pesquisadora sênior. Eu acabara de me aposentar, em 2014, quando  recebi  a notícia  que meu nome fora indicado para receber o honroso título. Tenho consciência que dei o melhor de mim durante minha vida de docente e pesquisadora, mas é muito gratificante ter este trabalho reconhecido. Agradeço aos meus pares e aos meus alunos por esta distinção.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

 Acho que nunca, como hoje, precisamos cultivar o bom jornalismo. Às vezes parece uma luta inglória. As escolas de jornalismo estão desanimadas  diante de avassaladores desafios, não sabem como se adequar a um novo modo de fazer jornalismo. Esta é a hora dos pesquisadores entrarem em campo para defender os princípios de um jornalismo de qualidade, um jornalismo ético e honrado.

Talvez esteja na hora da SBPJor lançar um grito de alerta em defesa do bom jornalismo.

 

José Faro

Trajetória:

Graduado em História pela Universidade de São Paulo (1973), Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1992) e Doutor em Ciências da Comunicação (Jornalismo) pela Universidade de São Paulo (1996). Atualmente é assistente doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) instituição na qual atua nos cursos de graduação em jornalismo. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em jornalismo; trabalha com projetos de pesquisa em história da comunicação, jornalismo investigativo, jornalismo cultural e ensino e pesquisa em comunicação. É consultor da Capes, do CNPq, da Fapesp e parecerista de diversas publicações acadêmicas e instituições da área de Comunicação.

 

ENTREVISTA:

1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Penso que a necessidade de uma entidade que tivesse como objetivo a organização da pesquisa em jornalismo sempre foi uma perspectiva tanto para o campo profissional quanto para o seu segmento acadêmico. Há uma correspondência entre os questionamentos teóricos e aplicados que emergiram das transformações pelas quais o jornalismo passou, em especial desde os anos 60, e a produção de pesquisas que tivessem como foco essas mudanças, seu impacto nas demandas profissionais e na construção de uma pedagogia que estivesse presente, com essas mesmas preocupações, no âmbito do ensino, principalmente depois da regulamentação da profissão nos anos 70. No entanto, em que pese a crescente consciência em torno dessas questões, o fato é que faltava para que ela adquirisse um caráter de projeto coletivo, isto é, a tradução dessas demandas em crescimento da produção da pesquisa em jornalismo, uma entidade que pudesse traduzir essa perspectiva em linha de ação, como a INTERCOM fazia no território da interdisciplinaridade. Acredito que a SBPJor veio ocupar esse espaço na medida em que representou a construção orgânica das demandas dispersas de investigação que predominavam, com o amadurecimento da ideia que me pareceu essencial desde a fundação da entidade: na área acadêmica e na área profissional, o jornalismo não poderia ser um universo conceitual e operacional apensado a uma área que ameaçava diluír sua epistemologia na ontologia dos processos da Comunicação. Nesse sentido, uma interdisciplinaridade “ortodoxa” talvez já não fosse a prioridade do jornalismo. A SBPJor deu corpo a essa percepção e a traduziu de forma associativa e compartilhada. Acrescento a essa rápida análise um outro elemento: a reação que se produziu na academia por ocasião da discussão sobre as diretrizes curriculares dos cursos de comunicação, já que os projetos de ensino do jornalismo incorporavam no perfil de sua grade curricular as vicissitudes daquela diluição apontada acima. A reação à continuidade desse quadro ganhou corpo quando da formação de uma comissão específica para discutir o assunto na órbita da peculiaridade do jornalismo sob a presidência do Prof. José Marques de Melo, aliás um dos grandes inspiradores da própria SBPJor.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início? 

Os principais desafios são aqui os decorrentes de  sua institucionalização. A SBPJor surge não como uma divisora de terrenos no interior da ABEPC, da INTERCOM, da COMPÓS, mas como um projeto de afirmação da especificidade teórico-conceitual do jornalismo. Não era (nem nunca foi) uma proposta simples; tampouco se tratava de agregar mais congressismo às práticas gregárias da academia, mas de trazer para o novo espaço de reflexão a massa crítica que o campo havia construído como seu capital intelectual ao longo do tempo… e fazer com que isso fosse legitimado no debate que se desdobrava desse processo. Com exceção dos “desafios” da formalização que esses pressupostos exigiam, não vejo outros que tenham significado obstáculos para as atividades da nova entidade. Ao contrário, o clima naqueles anos iniciais desse romantismo que sempre anda junto com propostas reformadoras das práticas que se consolidam pelo uso, era o da descoberta de um cenário de estímulo à reflexão que então se revigorava.

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Penso que sim, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque o campo do jornalismo formou, pelo menos em duas décadas anteriores à fundação da SBPJor, uma liderança intelectual de peso, legitimada e reconhecida na sua produção teórica e investigativa, dentro e fora da universidade. Contribuiu para isso a expansão da pós-graduação e das publicações que abrigavam essa produção… mas também as “guerrilhas” vividas no terreno profissional pelas inovações implementadas no jornalismo nos tempos da ditadura e depois. É preciso destacar que o universo experimental das práticas – da imprensa alternativa à luta contra a censura e o errático compromisso do capital com a imprensa -, esse universo experimental foi objeto de estudo referenciado pela profissão. Há um acúmulo de experiências nesse processo que, de alguma forma, foi canalizado para os eventos da SBPJor, para a nucleação que ela permitiu como referência pelo Brasil afora, tanto pelos efeitos da sua revista quanto pela atividade de grupos que surgiram então ou vieram a surgir nos anos seguintes.

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Acredito que o legado é de percurso e de estatura. Sou professor de cursos de jornalismo há pelo menos 30 anos, tendo sob minha responsabilidade disciplinas que se debruçam sobre  questões que versam sobre a formação teórica dos futuros profissionais. Percebo o legado já deixado pela SBPJor no volume crescente de referências que emergem da própria atividade da entidade, fato que não se confunde com qualquer postura endógena da produção bibliográfica, mas como presença de um conjunto de contribuições que a entidade permitiu.

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Minha participação na história da SBPJor foi pequena e se deu no início de suas atividades – recorte que reduz o campo da memória. Se tivesse que apontar algum episódio, penso que destacaria a convivência que essa “aventura” me permitiu com seus fundadores.  São figuras admiráveis e inesquecíveis…

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

Vou tentar o impossível: ser breve nesta resposta – e meio tautológico. O grande desafio é o de entender a natureza das mudanças estruturais pelas quais o jornalismo passa, tanto no terreno do impacto que uma certa ideologia da técnica traz para as práticas profissionais. O brilho da eficácia informativa pode estar perturbando o compromisso público do campo. É claro que há outros desafios, mas esse me parece ter uma natureza mais permanente e menos episódica e não tenho dúvidas sobre o “papel e relevância” que a SBPJor terá na sua compreensão.

 

Claudia Quadros

Trajetória:

Antes de seguir carreira acadêmica, eu trabalhei como jornalista em diversos meios de comunicação da capital paranaense: rádio, jornal, televisão e revista. Fui freelancer, repórter, editora e chefe de redação. Também fui assessora em agências de comunicação integrada.

O meu interesse pela pesquisa iniciou ainda na Universidade. Participei de um grupo de estudo com colegas do jornal em que trabalhava desde o segundo ano da faculdade. Neste grupo fui incentivada a pesquisar sobre temas que gostava, como tecnologia e comunicação. Mais tarde isso foi fundamental para o desenvolvimento da minha pesquisa de doutorado, que abordou os novos perfis profissionais exigidos no jornalismo digital. Desde então, tenho pesquisado a comunicação com ênfase na tecnologia social. 

A minha experiência com a docência iniciou ainda no doutorado, com algumas participações em cursos promovidos pela minha universidade na Espanha. Quando voltei para o Brasil, fui trabalhar no Centro Universitário Positivo como professora de Radiojornalismo. Logo fui para a Universidade Tuiuti do Paraná no segundo semestre dos anos 2000 para ser docente de jornalismo digital.  Concomitantemente, trabalhei como divulgadora científica por três anos em um projeto, mantido pelo governo do Paraná, que apoiou pesquisas de jovens doutores de diferentes áreas. Na UTP, fiquei por mais de dez anos. Lá fui professora de Jornalismo, Relações Públicas e coordenei o curso de Comunicação Social e o PPGCOM. Em 2010, com bolsa da Capes, concluí o meu pós-doutorado na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. A minha pesquisa foi sobre a interação de jornalistas com os públicos de dois diários digitais mantidos por empresas familiares. 

Morei também em Ouro Preto, depois de passar no concurso de docente para Webjornalismo na UFOP. Desde 2014, estou na UFPR. Aqui fui responsável enquanto coordenadora do PPGCOM-UFPR pelo projeto de doutorado em Comunicação junto com a professora Kelly Prudencio.

Além de contribuir com o trabalho voluntário para o desenvolvimento da SBPJor, também atuei no GT Estudos de Jornalismo da Compós por dois anos (2017 a 2018) como vice e mais dois (2019 a 2020) como coordenadora.

 

ENTREVISTA:

1 . Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

A minha aproximação com a associação está muito relacionada com o professor Elias Machado, que também fez doutorado na Espanha e foi o primeiro presidente da SBPJor. Recebi o convite para participar de duas chapas e concorrer às eleições de novas diretorias da SBPJor, depois de ter apresentado trabalhos em seus encontros. Por isso, já  atuei como vice-presidente e editora da Revista BJR – Brazilian Journalism Research (2007 a 2009) e como diretora científica (2009 a 2011). Por três anos consecutivos (2014 a 2016) coordenei também o Prêmio Adelmo Genro Filho, concedido pela SBPJOR. Também faço parte da Rede Jortec, após ser convidada por Rodrigo Franscico-Botelho, que é professor do PPGCOM-UFPR.

O meu envolvimento com a SBPJor está no meu interesse em apoiar uma associação que valoriza a pesquisa em jornalismo para o crescimento e reconhecimento da área.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início? 

O primeiro desafio foi atender como vice-presidente da SBPJor (2007 a 2009) uma demanda dos associados, lançar a versão em português da revista BJR. Isso significou trabalho dobrado, pois tive que editar duas revistas: uma em inglês e outra em português. Neste projeto, tive o apoio da professora Tattiana Teixeira (UFSC), que foi editora adjunta da BJR.    

O segundo desafio veio quando assumi a direção científica da SBPJor após Eduardo Meditsch (2003 a 2005) e Marcia Benetti (2005 a 2007 /2007 a 2009), pois eles tinham desenvolvido um trabalho muito importante e relevante para a nossa área. De 2009 a 2011, procurei ampliar o mapeamento das temáticas de pesquisadores brasileiros para que nós tivéssemos o maior número possível de especialistas entre os pareceristas de artigos científicos. Todos os processos da direção científica foram organizados para dar maior transparência possível ao sistema de avaliação. Também contribui na divulgação da SBPJor entre pesquisadores de outros países, sobretudo na Espanha.

De 2014 a 2016, coordenei o Prêmio Adelmo Genro Filho. Neste período, procurei apoio para dar uma identidade visual aos certificados e aos troféus. O mapa de temáticas desenvolvido na diretoria científica da SBPJor foi renovado e serviu para buscar avaliadores em diferentes regiões do país. O regulamento do Prêmio também foi atualizado, sempre buscando dar transparência a todo o processo. Não poderia deixar de destacar que foi um trabalho em equipe. Os pareceristas são fundamentais neste processo, pois eles fazem uma seleção criteriosa.  

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

O projeto coletivo para valorizar a pesquisa em jornalismo cresceu muito. Hoje, a SBPJor é uma associação reconhecida por seus pares no país e fora dele. É possível perceber também a evolução dos artigos científicos apresentados em seus encontros. Se antes não se dava atenção merecida à metodologia, hoje percebemos um cuidado dos pesquisadores em jornalismo no momento de descrever os procedimentos metodológicos.

A SBPjor também nos representa em outros fóruns científicos, fortalecendo a voz de seus associados. São muitas as ações que possibilitam conquistas para o avanço dos estudos de jornalismo. Nesse sentido, a SBPJor vem cumprindo a sua missão. A revista BJR tornou-se uma referência internacional, por isso o empenho da primeira diretoria em editar uma revista em inglês merece o reconhecimento de todos os associados. Percebo também que as novas diretorias sempre procuraram preservar a história, dando continuidade às ações propostas inicialmente e, claro, aprimorando processos.       

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

A SBPJor contribuiu para  o desenvolvimento científico do jornalismo nessas quase duas décadas de existência. Hoje, a associação reúne cientistas de várias partes do país  e eles podem formar redes de pesquisa. Eu, por exemplo, participo da Rede de Jornalismo e Tecnologia – Jortec. Neste ano, a rede organizou uma disciplina que foi ofertada para todo o país, com convidados e professores que fazem parte da Rede Jortec e a SBPJor deu total apoio. Ao promover esse espaço de discussão, a SBPjor incentiva e apoia diferentes propostas para compartilhar conhecimento sobre o jornalismo. Esse movimento conjunto, sem dúvida, contribui para o desenvolvimento do cientista e do próprio estudo de jornalismo.

Além disso, gostaria de destacar que foi na SBPjor que conheci vários pesquisadores de outras cidades brasileiras. Foi possível criar laços de amizade que se fortaleceram com o desenvolvimento de várias pesquisas conjuntas. 

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Muitos(as) pesquisadores(as) cresceram juntos com a SBPJor, pois sem dúvida a associação tornou-se um espaço importante para discutir a pesquisa de jornalismo com muito afeto, dedicação e respeito. Fiz parcerias com grandes pesquisadores e pesquisadoras e, o mais importante, estabeleci laços de amizade que vou levar para sempre.

Lembro de várias passagens que considero importantes para a história da SBPjor, como a participação de diversos pesquisadores convidados nacionais e internacionais para discutir o jornalismo nas mais diferentes perspectivas em seus encontros científicos.

Conseguimos também ver a trajetória dos vencedores do Prêmio Adelmo Genro Filho das primeiras edições. Eles e elas têm  construído uma trajetória brilhante na vida acadêmica e muitos comentam como foi importante o reconhecimento de suas pesquisas pela SBPJor.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

A ciência precisa de apoio governamental, privado e público. O jornalismo passa por um período de muito descrédito e de mudanças significativas no modus operandi. Por isso, o jornalismo precisa do conhecimento científico para acompanhar essas transformações e apontar possíveis soluções para informar com liberdade e combater a desinformação.

No livro Escutas do Jornalismo, organizado por Fernando Firmino da Silva, Joana Belarmino de Sousa e Pedro Nunes em 2017, falei sobre esses desafios no capítulo “A engenharia da Coragem para tecer o futuro do jornalismo”  Entre os grandes desafios, destaquei a interação com o público. O diálogo com os mais diferentes públicos é fundamental para a construção de uma ciência aberta, que também pode beneficiar o jornalismo e, principalmente, a sociedade. 

Ainda que as verbas para a pesquisa no Brasil não sejam suficientes (tivemos um corte recente no orçamento que é inacreditável), acredito no trabalho coletivo. Vejo a SBPJor como um espaço para discutir todas essas mudanças e de encontros entre pesquisadores que realmente se preocupam com o avanço dos estudos de jornalismo e do país.  

Rogério Christofoletti

Entrevista:

1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Não participei ativamente da criação da SBPJOR, mas me lembro que já havia em encontros e congressos da Intercom e da Compós algumas conversas sobre a necessidade de uma associação que pudesse congregar os pesquisadores em jornalismo. De minha parte, também sentia que isso era preciso tendo em vista as experiências que conhecia de outros países. De forma comparativa, tínhamos uma comunidade de investigadores dispersos e era mesmo estratégico atraí-los para uma sociedade científica específica.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início? 

Como disse, não participei dos primeiros dois anos iniciais, e não sou a melhor fonte de informação para esse nível de detalhamento.

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

A meu ver, sim. Ela conseguiu funcionar como um pólo atrator num primeiro momento, e depois, pode funcionar como um motor de uma política científica para o campo dos estudos de jornalismo, incentivando a criação das redes de pesquisa, destacando pesquisas no PAGF e estabelecendo padrões de excelência com a BJR.

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Outro dia eu me perguntava justamente isso: e se não tivéssemos criado a SBPJOR àquela época? Como estaríamos hoje? Arrisco a dizer que estaríamos alguns passos atrás no amadurecimento de nossa comunidade científica, sobretudo nos três aspectos que salientei na resposta anterior.

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Não, nenhum.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

Penso que a SBPJOR pode contribuir muito ainda na consolidação de políticas de interlocução internacional, no aprimoramento do ecossistema de periódicos científicos, no aumento do número de pesquisadores com bolsas de produtividade e de desenvolvimento tecnológico, e numa participação política mais efetiva, fazendo a SBPJOR auxiliar em políticas de comunicação pública, de combate à desinformação e de redução dos desertos de notícia

 

Tattiana Teixeira

Trajetória:

Tattiana Teixeira é jornalista e doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fez pós-doutorado no Departamento de Lógica, Historia y Filosofía de la Ciencia da UNED, em Madrid (2017/2018). Foi Diretora Editorial da SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo – por dois mandatos consecutivos, e editora executiva da Brazilian Journalism Research. Foi Coordenadora do GT Estudos de Jornalismo, da Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação), em 2013 e 2014 e vice-coordenadora em 2011 e 2012. Desde 2005, é professora do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde coordena o NUPEJOC – Núcleo de Pesquisa em Jornalismo Científico, Infografia e Visualização de Dados. Em 2020, foi uma das finalistas da 14a. edição do Prêmio Troféu Imprensa Mulher, na categoria Educação – Contribuição Acadêmica ao Jornalismo. Foi uma das fundadoras do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, o primeiro do país, onde atuou até 2014. Também integrou o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Foi bolsista de Produtividade do CNPq e é autora do primeiro livro brasileiro sobre Infografia e Jornalismo, editado pela EDUFBa, em 2010. Desenvolve pesquisas em Jornalismo desde 1993, como bolsista PIBIC, tendo recebido, em 1995, o prêmio COBRECOS/FENAJ pelos resultados de sua investigação sobre a cobertura das eleições de 1994. Foi diretora-geral de Comunicação da UFSC entre 2014 e 2016. Integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Comunicação Pública da Ciência, coordenado por Luisa Massarani (FIOCRUZ) e Ildeu Moreira (UFRJ).  

 

ENTREVISTA:

1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Havia uma necessidade muito grande de um espaço que pudesse congregar, de fato, os pesquisadores em Jornalismo. Isto porque, até então, nos congressos e encontros nacionais da área de Comunicação, tínhamos um, dois GTs dedicados ao tema e muitos pesquisadores em Jornalismo espalhados pelos demais porque só aqueles não davam conta das demandas/temáticas pesquisadas. Então, a possibilidade de reunir os pesquisadores em uma entidade mostrou-se bastante atrativa e, mais do que isso, essencial. Óbvio que houve resistência de alguns setores, como ainda há, mas isto faz parte da ciência e da política. 

Dentro deste contexto, o meu engajamento na criação se deu de forma muito orgânica. Desde o segundo semestre da graduação já fazia pesquisas em Jornalismo e logo cedo  comecei a participar dos congressos nacionais da área, inclusive o da Compós que durante muito tempo não tinha um GT específico para as pesquisas em jornalismo. Em 2003 estava finalizando meu doutorado e sentia falta de mais espaços acadêmicos onde se pudesse debater o jornalismo, sob diferentes perspectivas,  e a ideia da entidade pareceu-me muito interessante e promissora, apesar de desafiadora.  Lembro com clareza da emoção que tomou conta do auditório da UnB quando aconteceu a Assembleia de criação da SBPJor. Foi um momento muito bonito, de discursos firmes e emocionados em defesa do jornalismo como forma de conhecimento e do campo do Jornalismo como área de pesquisa. Todos/as sabiam que os desafios seriam muitos, mas havia ali determinação e esperança, um encontro inesquecível, congregando diferentes gerações. 

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início? 

Acho que o principal foi mostrar o porquê de sua existência, o porquê da defesa da especificidade do Jornalismo. Não foi fácil este processo, havia muitas crenças consolidadas. As pesquisadoras e pesquisadores da área, em sua maioria, tinham clareza do que se pretendia. Mas a resistência do sistema não foi pequena e onde há resistência sempre há algum nível de enfrentamento – e desgaste, por consequência. Mas valeu a pena.  

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

É um processo. A SBPJor ainda é uma entidade jovem, se pensarmos na história da pesquisa na área das humanidades, como um todo. Mas é evidente que muita coisa que projetamos ali no início aconteceu, desde a ampliação da verba para o desenvolvimento de pesquisas específicas; ampliação, ainda que discreta, das bolsas de produtividade para pesquisadoras/es em Jornalismo; a criação e consolidação da BJR, hoje uma referência no campo; o crescimento dos encontros anuais e das redes nacionais de pesquisa em jornalismo. Mas, em um cenário de desmonte total da ciência e da pesquisa no país, é preciso estar ainda mais atento e mais forte, parodiando Caetano, porque muita coisa está se perdendo. E esta força só vem do coletivo, portanto, a tarefa de conscientização, especialmente dos jovens pesquisadores que não fazem ideia do que enfrentamos lá atrás, é uma constante que merece a atenção permanente da entidade, como um todo. Por isso eu digo: é um processo. Muito ainda está em construção. 

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

Hoje temos programas de pós-graduação em Jornalismo, temos doutores em Jornalismo formados no Brasil, o que parecia impossível há duas décadas, e isto é graças, também, à criação da SBPJor.  Para quem chegou depois, pode parecer pouco, mas é uma conquista imensa e considerada improvável ou mesmo irrelevante, por alguns setores, antes de todo o movimento que a SBPJor congregou. Estabelecemos diálogos de alto nível com pesquisadores de várias partes do mundo que passaram a ver o que se fazia aqui com outros olhos. A SBPJor abriu muitas portas e ampliou a autoestima dos pesquisadores em jornalismo do país que se sentiram, enfim, representados. Outras entidades específicas foram criadas depois dela, o que mostra também o seu grau de influência no reconhecimento das identidades e suas especificidades na área de Comunicação, com respeito ao todo, como conjunto e força, dentro das Humanidades.      

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

A criação da BJR é um marco. Muita gente torceu o nariz, não foram poucos os que nos tacharam de arrogantes – “uma revista em inglês, como assim ? quem pensam que são ?” – e a revista, desde o seu início, é um sucesso, em todos os sentidos e apesar de todas as dificuldades que só quem a editou nas diferentes fases conhece a fundo. Desde sua criação, a BJR foi conquistando o seu espaço, colocando nossas pesquisas no mundo porque, infelizmente, se não publicamos em inglês, temos pouquíssima visibilidade e quem faz ciência a sério sabe o quanto circular é importante, essencial até. A BJR é uma referência que muito nos orgulha, por isso a destaco aqui. 

Há outros episódios importantes, como a premiação/reconhecimento de pesquisadores eméritos pioneiros, em cerimônias emocionantes, mas acho que a criação da BJR sintetiza o que a criação da SBPJor representa/ou.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

No tempo presente, creio que nenhum desafio é maior do que o enfrentamento do desmonte da ciência e das políticas de C,T&I. Eu poderia falar do quanto é fundamental desenvolvermos pesquisas aplicadas em Jornalismo, mas como fazer isto sem verba ? Como fazer isto quando ano sim, outro também, vivemos a insegurança quanto a financiamentos, inclusive os básicos, como as bolsas para estudantes de pós-graduação ? 

Você me pergunta qual o papel e a relevância da SBPJor neste contexto. Creio que, como já fez no passado, ela precisa assumir algumas dianteiras, mobilizar seus quadros, fazer ainda mais barulho, continuar denunciando estes absurdos todos, fazer congressos temáticos que deixem claro que não é possível/razoável realizar pesquisa séria e de qualidade sem investimento, reafirmar que não existe soberania sem desenvolvimento científico e tecnológico. No passado, tivemos de abrir muitas portas para que investimentos básicos nas pesquisas em jornalismo fossem feitos. E conseguimos. Eu não tenho dúvidas de que a SBPJor é uma liderança, uma potência e que esta potência deve estar a serviço da construção de um país menos desigual, que respeite e inclua seu povo, que respeite a ciência e o desenvolvimento científico nacional. Eu particularmente acho que não podemos mais continuar fazendo pesquisa em condições precárias, como forma de resistência. Isto não é resistência, é, de algum modo, fazer o jogo do opressor, mas esta é a minha opinião. Por isso é importante que a entidade nos chame para este debate, nos agregue também em nossas angústias para que possamos construir caminhos que não são nossos, individuais, mas coletivos e, por isso, fundamentais para o todo, para o país, para a democracia. 

Paula Melani

Trajetória:

Formada em Jornalismo pela Fundação Cásper Líbero e em Ciências Sociais pela USP/SP. Mestre e doutora em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Pós-doutora em Jornalismo pela Universidade Fernando Pessoa – Porto/Portugal. Ingressei no mercado de trabalho em jornalismo, em 1990. Trabalhei no jornal Diário Popular, Folha de S. Paulo, Editora Azul (revista), nas Empresas Pioneiras de Televisão – EPTVs (afiliadas da Rede Globo), e nas assessorias de imprensa da Divisão Regional Agrícola (Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo – regional de Ribeirão Preto), do Hemocentro de Ribeirão Preto e do Colégio Brasileiro de Hematologia. Junto com mais três pessoas criamos uma produtora independente.

Atuei como professora nas instituições privadas em Ribeirão Preto (SP) – UNAERP (Universidade de Ribeirão Preto) e Faculdades COC – e desde 2010 leciono na Universidade Estadual de Ponta Grossa. O interesse pela pesquisa em Jornalismo ocorreu após alguns anos de experiência no mercado, quando atuava na EPTV em Varginha, motivada pelo propósito de compreender a cultura profissional e as relações intrínsecas entre a prática do jornalismo e a sociedade, a participação do mercado de trabalho e a escolha das notícias. Interesse esse que ainda não se esgotou e que ao longo dos anos se deparou com novas frentes, em especial: a participação das mulheres na profissão e seus movimentos na cultura profissional, o mercado de trabalho, a conformação do campo, as relações de gênero, as intersecções com raça, classe, etnia, geração, as transformações da profissão e práticas do jornalismo no interior.

 

ENTREVISTA:

1.Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

O primeiro encontro que eu participei foi o 6º em São Bernardo do Campo, assim não sou a pessoa mais adequada para responder essa pergunta.

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início? 

Eu não tenho conhecimento para responder essa pergunta.

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Sim. Isso é perceptível pelo crescimento no número de associados, pela sua amplitude nacional, pelos encontros internacionais, pela participação de convidados de outros países como Portugal e França, por manter o encontro dos jovens pesquisadores no catálogo de eventos anuais, pelo fortalecimento e internacionalização da revista Brazilian Journalism Research (BJR) – colocando-a no ranking dos periódicos científicos da área- e pela consolidação das redes de pesquisa. Tudo isso revela o compromisso da associação em promover o debate, as relações entre projetos conjuntos e a divulgação científica, contemplando desde jovens pesquisadores até referências nacionais e internacionais.

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

A história da SBPJor compartilha em parte com a história do crescimento de novos cursos de graduação em Jornalismo pelo país e de programas de pós- graduação com pesquisas em Jornalismo. Acompanha o processo de aumento da qualificação dos profissionais e se consagra como um espaço de acolhimento. O legado é positivo pois recebe parte desses estudos em processo, ampliar a visibilidade entre os pares, suscita um ambiente de trocas de referências bibliográficas, perspectivas teóricas, conhecimento e fomento de novas problematizações que também fazem interfaces com o mundo do jornalismo. A SBPJor aproxima os interesses de pesquisas pelo campo e esse legado é único.

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Não me lembro de um episódio em especial, mas gostaria de destacar as lives que a SBPJor coordenou a partir do início da pandemia. Foram oportunas e produtivas em um momento datado de incertezas.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

A gestão política federal atual não prioriza a ciência e suas interfaces com a pesquisa, tecnologia, ensino, formação e academia. A pesquisa em Jornalismo integra o rol dos ataques governamentais com cortes de verbas, bolsas, apoio e reconhecimento. Iniciou em 2019 como política de governo e intensificou o longo do período. Desafia os ideais da democracia, a garantia dos direitos humanos, estimula as desigualdades de raça, gênero e classe, colocando em risco o próprio Estado Democrático ainda em formação e bloqueando qualquer perspectiva de desenvolvimento social.

Além da pesquisa, o exercício da profissão e as próprias deontologias do jornalismo são alvos dos ataques e agressões cometidos pelo governo. Em paralelo, o jornalismo passa por transformações, anteriores a 2019, que intercruzam também com o contexto político. A busca da compreensão desses movimentos e seus desdobramentos para o campo é um dos desafios da pesquisa que abre várias frentes de investigações.

Nesse contexto, a SBPJor é fundamental por se constituir como um espaço de trocas de conhecimento, desenvolvimento de pesquisas conjuntas, divulgação científica, além de abrigar múltiplos interesses de investigação de forma horizontal por meio dos Gts. Também destaco a participação ativa da associação nas ações e manifestos em defesa da ciência, do jornalismo, da pesquisa e da democracia.

Marcos Paulo

Trajetória:

Marcos Paulo da Silva foi presidente (2019-2021) e diretor científico (2017-2019) da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor, 2019-2021), integrando atualmente (2021-2023) o Conselho Científico da entidade. É professor associado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), orientando e lecionando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL) e no curso de graduação em Jornalismo da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação (FAALC/UFMS). Atualmente desenvolve pós-doutorado como pesquisador visitante na School of Journalism da Michigan State University (East Lansing – Estados Unidos) com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi Secretário Especial de Comunicação Social e Científica da Instituição (2017) da UFMS. Foi também vice-coordenador (2017-2020) do GP Teorias do Jornalismo da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM). Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com estágio de doutorado-sanduíche (PDEE/CAPES) na Syracuse University (Syracuse, New York, Estados Unidos). Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Iniciou a carreira como repórter e redator em veículos de comunicação do interior paulista. Atuou como jornalista concursado na Universidade de São Paulo (HRAC-USP, 2006-2009), onde desenvolveu projetos de comunicação pública e divulgação científica. Realiza pesquisas sobre aspectos teóricos do jornalismo, noticiabilidade, cotidiano e estética da comunicação. É líder do Grupo de Pesquisa Cotidiano e Noticiabilidade (UFMS). Membro da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (gestões 2017-2020 e 2020-2022).

 

ENTREVISTA:

 1. Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

A SBPJor foi criada em 2003, quando eu ainda era um jovem jornalista recém-egresso dos bancos universitários no interior de São Paulo. Por isso, é uma grande honra e uma alegria ter tido a oportunidade de – quase duas décadas depois – tornar-me Diretor Científico (2017-2019) e depois Presidente (2019-2021) da Associação que foi sonhada e talhada por pesquisadores e pesquisadoras de respeito que trabalharam para institucionalização do campo da pesquisa em Jornalismo no Brasil. São nomes pelos quais tenho profunda estima e respeito acadêmico, verdadeiras referências para mim: Elias Machado, Luiz Gonzaga Motta, Victor Gentilli, Eduardo Meditsch, Dione Moura, Alfredo Vizeu, Beatriz Becker, José Marques de Melo (in memoriam), José Luiz Proença (in memoriam), Marcos Palacios, Sonia Serra, Zélia Leal Adghirni, Claudia Lago, Mágda Cunha e Francisco Karam, para mencionar apenas a primeira Diretoria, entre tantos outros nomes que fizeram parte daquele momento, como meu colega Gerson Martins, autor da histórica foto dos primeiros diretores. Alguns desses pesquisadores depois tornaram-se meus verdadeiros colegas de trabalho, com parcerias em pesquisas conjuntas, debates e bancas de pós-graduação e concursos. Eles e elas sonharam o sonho que era possível e necessário naquele momento. Tal como destacado em seu estatuto, a SBPJor nasceu com o objetivo central de promover estudos interdisciplinares avançados no campo do Jornalismo. Tornou-se realidade. Eu costumo brincar que não foi por acaso que a SBPJor nasceu num auditório localizado sob uma das asas projetadas por Oscar Niemayer para a Universidade de Brasília. Foi o auspício daquelas grandes asas de concreto que fez o sonho voar tão longe.

 

2.  Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?  

Eu não posso falar dos desafios iniciais da Associação, pois meu envolvimento com a SBPJor começa apenas em 2009, ainda como estudante de Doutorado, e se acentua a partir de 2015, até chegar à Presidência em 2019. Mas como membro da Diretoria por dois mandatos tive a oportunidade de estudar a história da Associação e posso falar dos objetivos iniciais que foram atingidos. Particularmente, meu primeiro contato efetivo com a SBPJor se dá no Encontro de 2009 na Universidade de São Paulo (USP). Na ocasião, cursava meu Doutorado em Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e fui muito incentivado por meu então orientador, José Salvador Faro, a participar do evento. O Professor Faro integrava o Conselho Científico da SBPJor e foi um grande incentivador deste meu primeiro contato. Apresentei meu trabalho e fiquei encantado com o acolhimento dos pesquisadores atrelado a um rigor crítico que o evento exalava, foi muito estimulante ver pesquisadores de diferentes níveis com interesse em um objeto de pesquisa comum. Também foi particularmente marcante assistir à conferência de abertura da Professora Pamela Shoemaker, que dois anos depois viria a ser minha orientadora no doutorado-sanduíche na Syracuse University, nos Estados Unidos. Devo à SBPJor este primeiro contato com esta grande pesquisadora, cujo trabalho conjunto como orientando me abriu posteriormente tantas portas. Esta foi uma dívida que tive com a SBPJor e que tentei pagar depois com meu envolvimento e dedicação à Associação. Em 2015, organizamos o Encontro da SBPJor em Campo Grande (MS), na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, instituição onde trabalho, e pude cuidar da logística do evento. Dois anos depois veio o honroso convite para integrar a chapa e tornar-me Diretor Científico. De dentro, pude ver os objetivos sonhados inicialmente pelos fundadores sendo efetivados, tal como prevê o estatuto da SBPJor: contribuir para a reflexão pluralista sobre os problemas emergentes do Jornalismo, contribuir para o aperfeiçoamento e para a revitalização intelectual dos associados, mediante o intercâmbio de experiências entre os/as pesquisadores/as da área de Jornalismo, contribuir para a formação de modelos de análise e metodologias de ensino e pesquisa no Jornalismo, contribuir para desenvolvimento da produção científica, artística, cultural, informativa e educativa do país, contribuir para o aprimoramento das instituições democráticas, promovendo e difundindo a liberdade de expressão e pensamento, assim como o livro exercício da Comunicação. Mas é preciso também frisar que a SBPJor é uma construção coletiva que respira os ares de seu tempo histórico. Dessa forma, os anseios e objetivos permanecem sempre em mudança e aprimoramento, assim como a própria visão e expectativas que os associados possuem da entidade.

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por quê?

Certamente. Hoje a SBPJor é uma entidade científica respeitada nacionalmente e reconhecida internacionalmente. Sua história foi importantíssima para o reconhecimento e para a institucionalização da pesquisa em Jornalismo no Brasil. A Associação cresceu e amadureceu, assim como seus eventos. Hoje são eventos para centenas de pesquisadores e pesquisadoras de todas as regiões do país, alguns inclusive do exterior. Nesses anos, também ocorreu um importante crescimento do Encontro de Jovens Pesquisadores em Jornalismo (JPJor), hoje um evento acolhedor e que atrai jovens graduandos e graduandas que serão os futuros pesquisadores que levarão à SBPJor à frente nas próximas décadas. Trata-se de um movimento importante de inclusão e de democratização do conhecimento. A entidade ainda faz um trabalho essencial de fomento de suas redes de pesquisa, que seguem crescendo. Nos últimos anos duas novas redes se credenciaram: a Rede de Pesquisa Trabalho e Identidade no Jornalismo (RETIJ) e a Rede de Pesquisa em Radiojornalismo (RADIOJOR), juntando-se à Rede de Pesquisa Aplicada Jornalismo e Tecnologias Digitais (JORTEC), à Rede de Pesquisa em Telejornalismo (TELEJOR), à Rede Nacional de Observatórios de Observatórios de Imprensa (RENOI) e à Rede de Pesquisa Narrativas Midiáticas Contemporâneas (RENAMI). Por fim, é preciso falar da internacionalização da SBPJor. E, neste quesito, o crescimento e o amadurecimento da Brazilian Journalism Research é fundamental. Hoje temos uma das melhores e mais criteriosas revistas científicas do Brasil e da América Latina e este resultado é fruto de um trabalho incansável dos editores que desde o início têm se dedicado ao periódico.

 

 4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em Jornalismo?

 Talvez o principal legado da SBPJor esteja na identidade de um(a) jovem graduando(a) que ingressa na pesquisa acadêmica em Jornalismo e encontra no horizonte uma entidade científica séria e acolhedora devotada a este objeto de estudo. A SBPJor se tornou um horizonte, um farol para os(as) pesquisadores(as) que ingressam neste campo científico. Mas a Associação é especialmente também um espaço fundamental de interlocução e de trocas acadêmicas para pesquisadores(as) sêniores que encontram ali o substrato fértil para fazer florescer suas ideias e parcerias com estudiosos(as) de todo o Brasil e do exterior. Além disso, como já dito, o processo de internalização da SBPJor é muito importante para comunidade brasileira de pesquisadores(as) em Jornalismo. A revista Brazilian Journalism Research desempenha um papel essencial nesse sentido, mas é também preciso sublinhar a relevância das conferências internacionais realizadas nestas quase duas décadas que abriram o horizonte para muitos pesquisadores, como foi o caso da minha própria experiência pessoal. Por fim, destaca-se o protagonismo da SBPJor neste momento histórico em que a defesa do trinômio Jornalismo-Ciência-Democracia se mostra tão necessária. A entidade tem tido voz ativa nos movimentos de defesa do estado democrático de direito, sempre em interlocução com outras associações científicas e profissionais e com a sociedade civil.

 

 5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Do ponto de vista institucional, como ex-Presidente (2019-2021), posso falar do desafio de conduzir a SBPJor em um cenário de pandemia e pela primeira vez na história da entidade realizar eventos de forma virtual. Quando a pandemia da Covid-19 teve início no primeiro semestre de 2020, a realização de um evento totalmente remoto parecia um desafio distante. Mas com o apoio da Diretoria, do Conselho Científico, do Conselho Administrativo, das coordenações das redes de pesquisa e da comunidade acadêmica de forma geral, conseguimos superar os desafios e realizar tanto em 2020 quanto em 2021 os eventos virtualmente. Se por um lado os eventos remotos tiveram limitações – a começar pela falta de calor humano e de afeto que só os eventos presenciais possuem –, por outro ocorreu um processo de democratização importante, atraindo jovens pesquisadores das mais distantes regiões do país. A Diretoria, mesmo em sua responsabilidade com a saúde financeira da Associação, fez naquele momento uma concessão importante com isenções e preços bastante acessíveis nas inscrições dos graduandos, mestrandos e doutorandos. Além dos dois congressos, também foram realizados importantes debates virtuais pelo canal do Youtube da SBPJor, como o ciclo “A pesquisa em Jornalismo em tempos de Covid-19”, um sucesso de público com discussões muito pertinentes para entender aquele cenário de incertezas ainda nos primeiros meses da pandemia, e posteriormente os ciclos “SBPJor em Redes”, com apoio das redes de pesquisa credenciadas à entidade. Do ponto de vista pessoal, como mencionado anteriormente, considero que a conferência da Professora Pamela Shoemaker no Encontro da SBPJor de 2009 foi um marco significativo. A partir do contato com a pesquisadora, um nome de referência internacional, mas também um grande ser humano de muita generosidade, pude abrir e expandir meu horizonte para a pesquisa internacional em Jornalismo. Menos de dois anos depois fui acolhido na Syracuse University, nos Estados Unidos, pelo grupo de pesquisa coordenado por Pamela Shoemaker, experiência de pesquisa que abriu portas importantes para minha carreira como professor e pesquisador. Definitivamente, foi um marco significativo da SBPJor em minha vida.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em Jornalismo? Qual o papel e relevância da SBPJor neste contexto?

Acredito que o desafio atual da pesquisa em Jornalismo e de uma entidade científica como a SBPJor seja equacionar a fórmula entre uma fundamental democratização do conhecimento com o tratamento de problemáticas emergentes no país e a inclusão de novos atores (em especial com o acolhimento e a formação de jovens pesquisadores e pesquisadoras em situação de vulnerabilidade de todas as regiões do país, com destaque para aquelas distantes dos maiores centros urbanos) e a garantia necessária do rigor e do crivo crítico que a produção do conhecimento científico exige. Assim, é necessário que a Associação cresça e se democratize cada vez mais, mas sempre com o rigor caro à ciência e ao pensamento crítico em sintonia com o estado da arte da pesquisa em Jornalismo, uma das bandeiras históricas da SBPJor. Este é o desafio.

 

Marluce Zacariotti

 Marluce Zacariotti é jornalista, doutora em Educação (PUC/Go) e Professora de Jornalismo na UFT. Foi membro do conselho fiscal da SBPJor (2017/2019), atualmente é vice-coordenadora da Rede de pesquisa Trabalho e identidade dos jornalistas (Reitji/SBPJor – 2021/2023). Por meio dos grupos desenvolve pesquisas colaborativas como  a de “Novos arranjos econômicos e alternativos às corporações de mídias”.

Segundo a pesquisadora, as discussões democráticas e a preocupação com o jornalismo como campo específico de pesquisa foi a motivação para que ela se sentisse atraída a ajudar na consolidação do projeto. Para Marluce, um dos principais desafios iniciais era montar uma associação sem receita, que dependia apenas da adesão dos sócios e depois a demarcação do campo próprio de pesquisa, entretanto a SBPJor conseguiu se consolidar posteriormente, ter conexões com pesquisadores internacionais, é uma prova dessa consolidação para a professora. Ela completa com o que pra ela é um legado que é associação ter tamanha importância a ponto de  garantir credibilidade aos seus associados.

“Temos tido muitos desafios para pesquisa de modo geral, as fontes de financiamento diminuíram drasticamente o investimento em função de um governo que não valoriza a pesquisa, tampouco a educação”, pondera Marluce. 

#ParaTodosVerem: Fundo verde com logo da SBPJor à direita no canto superior. Na esquerda na parte inferior um círculo marrom claro escrito Memórias SBPJor. 

Sonia Serra

Trajetória:

Ingressei no curso de Jornalismo, da Faculdade de Comunicação, da Universidade Federal da Bahia – UFBA, em 1972, ano em que foi criada a primeira entidade acadêmica nacional, na área de Comunicação, a  ABEPEC (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa da Comunicação), da qual participei como estudante e como docente, da mesma Faculdade, a partir de 1976.  Ensinei e realizei estudos e pesquisas nas seguintes áreas: metodologia de pesquisa em comunicação, fundamentos científicos da comunicação, comunicação e política, jornalismo científico,  teoria do jornalismo e história do jornalismo. 

A minha dissertação de mestrado, defendida, em 1988, na UFBA,   intitulada O Momento: história de um jornal militante, analisou o jornal, mantido pelo PCB, em Salvador, de 1945 a 1957. Minha tese de doutorado, defendida na Universidade de Londres, em 1999, com o título The media, the international public sphere and the killing of street children in Brazil, discutiu teorias do jornalismo e utilizou uma abordagem histórica para analisar como o tema dos assassinatos de crianças e adolescentes, no Brasil, passou para a agenda pública, na interação entre a imprensa,  a sociedade civil e o governo, nos planos nacional e internacional, em  1991.

Em 1990, participei da implantação da pós-graduação em comunicação na UFBA, onde fui uma das coordenadoras da linha de pesquisa de Comunicação e Política. Em 1999, fui eleita coordenadora do GT Estudos de Jornalismo, da Compós. Fui pesquisadora do CNPq e em 2001, criei o grupo de pesquisa Jornalismo: teoria, história e políticas.  Em 2003, fui eleita para integrar o primeiro conselho científico da SBPJor. Entretanto, desde 2010, me afastei da docência, na academia. Passei a me dedicar à pesquisa da  história da Bahia.


ENTREVISTA:

1 . Como se deu a conscientização dos pesquisadores para a criação de uma Associação específica sobre Jornalismo e quais foram as suas motivações como pesquisador(a) que o(a) levaram a se envolver no processo de criação da SBPJor?

Os pesquisadores da área de comunicação, mais preocupados com o estudo do jornalismo, percebiam a necessidade de um espaço maior para a análise e debate das especificidades do campo.  Havia um paradoxo: a maioria dos mais de duzentos cursos de graduação tinha como habilitação o jornalismo, mas dos 20 programas de pós-graduação, em comunicação, só dois deles tinham linhas de pesquisa em jornalismo. Portanto, a maior parte da produção acadêmica da área não contribuía de forma mais específica para a formação dos estudantes. Havia também um descompasso entre a teoria e a prática e muito pouca pesquisa empírica era realizada.

A criação então recente de um GT de Estudos de Jornalismo na associação nacional  dos programas de pós-graduação em Comunicação, nove anos depois de sua fundação,  refletia a compreensão da necessidade de mudar essa situação. Mas pelo formato da Compós, com a possibilidade de debate anual de apenas dez trabalhos no GT, que recebia quase cinquenta para selecionar,  ficava evidente que o grupo era ainda insuficiente para a demanda existente, ainda que houvesse um espaço um pouco maior em outras entidades.  Por esses motivos considerei muito relevante a fundação de  uma associação, voltada para a pesquisa do jornalismo. 

 

2. Quais foram os principais desafios da SBPJor em seu início?

Não sou a pessoa mais indicada para responder essa questão. Mas, acredito que como toda nova associação, além de se debater com as condições organizativas e de financiamento, era necessário  criar formas  para  conciliar  a maior quantidade de trabalhos com a garantia da qualidade do debate e da pesquisa.  

 

3. Na sua visão, a SBPJor se consolidou no que você projetava quando da fundação? Por que?

A SBPJor conseguiu se consolidar como um espaço fundamental para o desenvolvimento da pesquisa em jornalismo e uma maior interação entre estudantes, profissionais e docentes pesquisadores,  como demonstra a ampla participação nos encontros, por todos esses anos, chegando a  cerca de 500 inscritos e de 300 trabalhos apresentados e debatidos como  comunicações individuais  ou  em sessões coordenadas.

 

4. Como avalia o legado da Associação nessas quase duas décadas e como compreende a importância histórica da SBPJor para as pesquisas em jornalismo?

Embora não tenha participado da associação, nos últimos anos,  avalio que   a manutenção da regularidade dos encontros, a criação e manutenção das  redes de pesquisa e  da revista Brazilian Journalim Research, por quinze anos, ampliando a interação nacional e internacional dos pesquisadores é, sem dúvida, um legado importante.  Além disso, acredito que a SBPJor tenha contribuído, de modo significativo, para a mudança no quadro anterior da área,  descrito acima. Nesse quadro,  o surgimento de mestrados profissionais é também  um avanço, embora ainda limitado.

 

5. Tem algum episódio, em especial, que considera importante na história da SBPJor que gostaria de destacar? Conte para nós.

Acho que o  episódio mais especial é o momento da própria criação da entidade.

 

6. Quais são os desafios que você percebe atualmente para a pesquisa em jornalismo?

As constantes transformações do jornalismo,  que já foi avaliado por uns,  como em risco de extinção mas, pelo contrário, se mostra  absolutamente necessário, especialmente  em tempos de fake news e pandemias, desafiam as possibilidades de sua análise. A existência de entidades com as características da SBPJor, que se preocupam com a permanente  reflexão da relação entre a teoria e a prática profissional é vital nesse contexto.