A SBPJor dá início a uma série de entrevistas com pesquisadoras e pesquisadores da área de jornalismo, com o objetivo de ampliar o debate sobre temas centrais do campo. Nesta primeira edição, a pesquisadora Carla de Oliveira Tôzo, doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e sócia da SBPJor, discute os principais desafios do jornalismo científico no Brasil.
Com trajetória consolidada na área, a autora tem participação em encontros da associação, como o 22º e o 23º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), realizados em 2024 e 2025, além do SBPJor em Redes (2025). Sua atuação em eventos da área remonta a anos anteriores, como o 15º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, em 2017, quando apresentou trabalho sobre a cobertura de saúde no rádio.
Ao longo de sua produção acadêmica, Carla Tôzo investiga o papel das universidades públicas na circulação do conhecimento e o jornalismo científico em contextos institucionais, com foco em experiências como o Jornal da USP. Na entrevista, a pesquisadora analisa as relações entre universidade e sociedade, os fluxos de circulação da ciência e os impactos da pandemia na visibilidade do conhecimento científico, além de refletir sobre os limites estruturais da divulgação científica e as transformações no ambiente digital diante do avanço da desinformação.
Confira a seguir a íntegra da conversa.
1. Como você define jornalismo científico na sua pesquisa? E como ele se diferencia da comunicação ou da divulgação científica?
Trabalhei com o conceito clássico de jornalismo científico (Bruno, 1985; Oliveira, 2002; Marques de Melo, 1982, 2014; Burkett, 1990, entre outras e outros), entendendo-o como o jornalismo especializado que cobre ciência e tecnologia. A principal diferença está justamente no fato de ser jornalismo: ele precisa seguir a práxis jornalística, com pauta, periodicidade, fontes e critérios de noticiabilidade.
Já a divulgação científica não está presa a essas regras. O divulgador pode recorrer ao jornalismo, mas também a diversas outras ferramentas e formatos. Uma feira de ciências na escola, uma peça de teatro ou uma revista especializada são exemplos de divulgação científica. Há, nesse campo, uma preocupação mais evidente com a dimensão educativa.
No caso da comunicação científica, trata-se da comunicação entre pares, especialistas falando com especialistas por meio de artigos, ensaios, livros e papers.
Durante minha pesquisa, no entanto, ficou claro que essa distinção é mais teórica do que prática. Os jornalistas reconhecem que fazem jornalismo porque seguem suas regras, mas também sabem que, muitas vezes, o objetivo é ampliar a divulgação da ciência. Por isso, os termos aparecem de forma intercambiável.
2. Sua tese parte de um contexto marcado pela pandemia e pela desinformação. Como esse cenário impactou o papel da divulgação científica no Brasil e como continua impactando?
Costumo dizer que a pandemia foi positiva para o meu objeto de estudo, no sentido de que trouxe visibilidade ao que já vinha sendo feito. Foi um momento em que práticas existentes ganharam mais luz.
Havia ações isoladas ou institucionais voltadas à ampliação do acesso ao conhecimento científico e ao combate à desinformação. Esse cenário se agravava diante de um contexto político marcado por negacionismo, cortes de verbas e perseguições a professores, cientistas e jornalistas.
Com a pandemia, houve um duplo movimento: um grito de socorro das instituições e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de mostrar à sociedade o que estava sendo produzido. A sociedade passou a reconhecer esses espaços como locais sérios de produção de conhecimento.
Instituições ampliaram suas ações ou passaram a atuar, especialmente porque a grande imprensa reduziu o espaço dedicado à ciência, levando universidades a criarem seus próprios canais.
3. Quais são hoje os principais obstáculos para que o conhecimento científico chegue à população?
A base dessa discussão é a educação. É fundamental retomar uma educação de qualidade, que estimule o pensamento crítico e o interesse pela ciência desde cedo.
Se os cientistas permanecerem restritos aos seus espaços, o conhecimento não alcança o público mais amplo. É necessário ampliar a presença da ciência nos meios de comunicação e nas mídias digitais.
Universidades e instituições de pesquisa também precisam fortalecer seus canais. Trata-se de um esforço coletivo.
4. O jornalismo científico ganhou espaço duradouro após a pandemia?
Parte do público interessado em ciência ainda permanece, mas o nível de interesse é menor do que durante o período mais intenso da pandemia.
A grande imprensa não ampliou de forma consistente a cobertura científica e, muitas vezes, utiliza conteúdos produzidos pelas universidades. Há também um debate mais presente sobre desinformação.
Esses avanços não se traduziram em aumento de investimentos. A desinformação continua forte e o enfrentamento permanece.
5. Por que a comunicação científica ainda é voltada aos pares?
A lógica da produção acadêmica exige que pesquisadores publiquem e participem de eventos, mantendo um ciclo voltado aos seus próprios campos.
Além disso, há sobrecarga de trabalho. Entre ensino, pesquisa e publicação, sobra pouco tempo para investir em divulgação mais ampla.
6. Como você caracteriza o jornalismo científico nas universidades públicas?
Ele articula extensão, mediação social e prática jornalística.
Há maior tempo de apuração e autonomia editorial, mas também limitações estruturais. A falta de recursos compromete a continuidade dos projetos e mudanças de gestão podem interromper iniciativas.
7. Como você avalia o ambiente digital e o avanço da desinformação?
O ambiente digital ampliou o acesso à informação, mas também intensificou a desinformação.
O excesso de estímulos dificulta a filtragem. Por isso, é essencial investir em literacia midiática.
8. A comunicação institucional tende a se consolidar nas universidades?
Sim. Em algumas instituições isso já vinha ocorrendo antes da pandemia. Em outras, houve formalização recente.
A criação de diretrizes institucionais também funciona como proteção contra descontinuidades.
9. Quais caminhos são mais urgentes para fortalecer a divulgação científica no Brasil?
O principal caminho é o investimento em educação de qualidade, especialmente no ensino de ciências.
A isso se soma a educação midiática. A articulação entre essas dimensões permite o desenvolvimento de pensamento crítico e o enfrentamento da desinformação.
Entrevista realizada com base na tese A práxis do jornalismo científico: a experiência do Jornal da USP e de universidades públicas brasileiras no período pandêmico, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). Os resultados da pesquisa foram apresentados no 21º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), com trabalho publicado nos anais do evento.
Referências mencionadas na entrevista
BUENO, W. C. Jornalismo científico: conceito e funções. Revista Ciência e Cultura, São Bernardo do Campo, v. 37, n. 9, p. 1420-1427, set. 1985.
BURKETT, Warren. Jornalismo científico: como escrever sobre ciência, medicina e alta tecnologia para os meios de comunicação. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.
MARQUES DE MELO, José. Impasse do jornalismo científico. Revista Comunicação & Sociedade, São Bernardo do Campo, n. 7, 1982.
MARQUES DE MELO, José; RIBEIRO, José Hamilton. Jornalismo científico: teoria e prática. São Paulo: Intercom, 2014.
OLIVEIRA, Fabíola de. Jornalismo científico. São Paulo: Contexto, 2002.
TÔZO, Carla de Oliveira. A prática do jornalismo científico no Jornal da USP em prol da informação. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM JORNALISMO (SBPJor), 21., 2023. Anais […]. Disponível em: https://proceedings.science/proceedings/100415/_papers/178034/download/fulltext_file2/galoa-proceedings-sbpjor-2023-a-pratica-do-jornalismo-cientifico-no-jornal-da-usp-em-prol-da-i.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.
TÔZO, Carla de Oliveira. A práxis do jornalismo científico: a experiência do Jornal da USP e de universidades públicas brasileiras no período pandêmico. 2024. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27164/tde-02072024-122634/. Acesso em: 16 abr. 2026.